Elmord's Magic Valley

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Posts com a tag: lang

Trivia etymologica #4: puxar, push, empurrar

2019-02-08 01:27 -0200. Tags: lang, etymology

Pois já fazia um tempo que eu andava intrigado com as palavras puxar, push e empurrar:

[Imagem: Instruções de saída de emergência de ônibus. Português: 'Saída de emergência: Puxe a alavanca e empurre a janela'. Espanhol: 'Salida de emergencia: Tire y empuje la ventana'. Inglês: 'Emergency exit: Pull down the lever and push the window'.]

A fonte de todo o questionamento

Pois acontece, imaginem vocês, que todas essas palavras são cognatas.

puxar vem do latim pulso, pulsare, que significa, entre outras coisas, "empurrar". (Da mesma raiz derivam também impulso, expulso, propulsão, repulsa, além de, obviamente, pulsar.) Em algum momento, a palavra inverteu de sentido até chegar no português; quando e como isso aconteceu fica sugerido como exercício para o leitor. A mesma palavra dá origem em espanhol à palavra pujar, que significa "fazer esforço, empurrar", entre outros sentidos.

De impulso, impulsare (in + pulsare) deriva a palavra empujar em espanhol. Aparentemente a palavra empuxar também existe em português, de onde deriva empuxo, com o signficado original de algo que empurra. Não contente com o vocábulo nativo, entretanto, o português posteriormente importa o empujar do espanhol como empurrar.

Finalmente, push é derivado do francês medieval pousser, do francês antigo poulser, do latim pulsare. Assim, embora push e puxar possam ser falsos amigos, elas são tecnicamente cognatos verdadeiros, sendo puxar talvez o irmão gêmeo maligno da família.

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Old Chinese and related resources

2018-12-30 22:35 -0200. Tags: lang, in-english

This post collects some links to resources about Old Chinese I have found on the web. Maybe I will move these to a page of their own, as soon as I figure out how I want to organize the non-blog parts of this website.

Texts

Short videos

Books

Workshops

Summer School in Old Chinese Phonology, 2007

These are videos of a 3-day workshop with presentations by Baxter and Sagart.

  1. The Baxter-Sagart System of Old Chinese Reconstruction 2007-07-02 (mp4)
  2. Old Chinese Word Structure 2007-07-02 (mp4)
  3. Onsets 2007-07-03 (mp4)
  4. Finals 2007-07-03 (mp4)
  5. Lines of Evidence 2007-07-04 (mp4)
  6. Sino-Tibetan and Beyond 2007-07-04 (mp4)

Recent Advances…

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Trivia etymologica #3: -ães, -ãos, -ões

2017-08-17 13:29 -0300. Tags: lang, etymology

Em português, palavras terminadas em -ão têm três possíveis terminações de plural diferentes: -ães (cão → cães), -ãos (mão → mãos) e -ões (leão → leões).

Como é que pode isso?

Esse é mais um caso em que olhar para o espanhol pode nos dar uma idéia melhor do que está acontecendo. Vamos pegar algumas palavras representativas de cada grupo e ver como se comportam os equivalentes em espanhol:

Singular Plural
Português Espanhol Português Espanhol
-ães cão can cães canes
capitão capitán capitães capitanes
alemão alemán alemães alemanes
-ãos mão mano mãos manos
irmão hermano irmãos hermanos
cidadão ciudadano cidadãos ciudadanos
-ões leão león leões leones
nação nación nações naciones
leão león leões leones

O que nós observamos é que em espanhol, cada grupo de palavras tem uma terminação diferente tanto no singular (-án, -ano, -ón) quanto no plural (-anes, -anos, -ones), enquanto em português, todas têm a mesma terminação no singular (-ão), mas terminações distintas no plural (-ães, -ãos, -ões). A relação entre as terminações no plural em espanhol* e português é bem direta: o português perdeu o n entre vogais (como já vimos acontecer no episódio anterior), mas antes de sair de cena o n nasalizou a vogal anterior, i.e, anes → ães, anos → ãos, ones → ões.

Já no singular, as três terminações se fundiram em português. O que provavelmente aconteceu (e eu preciso arranjar mais material sobre a história fonológica do português) é que o mesmo processo de perda do n + nasalização ocorreu com as terminações do singular (i.e., algo como can → cã, mano → mão, leon → leõ), e com o tempo essas terminações se "normalizaram" na terminação mais comum -ão. Como conseqüência, o singular perdeu a distinção entre as três terminações, enquanto o plural segue com três terminações distintas.

_____

* Tecnicamente eu não deveria estar partindo das formas do espanhol para chegar nas do português, mas sim partir da língua mãe de ambas, i.e., o dialeto de latim vulgar falado na Península Ibérica. Porém, nesse caso em particular o espanhol preserva essencialmente as mesmas terminações da língua mãe, então não há problema em derivar diretamente as formas do português a partir das do espanhol.

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Trivia etymologica #2: cheio, full

2017-03-13 00:17 -0300. Tags: lang, etymology

Seguindo o tema de fartura do último episódio, começaremos nosso passeio etimológico de hoje com a palavra cheio. Cheio vem do latim plenus. É uma mudança fonética e tanto, então vamos por partes.

O meio

Cheio em espanhol é lleno. Olhar para o espanhol freqüentemente ajuda a entender a etimologia de uma palavra em português, porque o espanhol conserva alguns sons que se perderam em português, e vice-versa. Neste caso, o espanhol conservou o n de plenus que o português perdeu. O português tem uma séria mania de perder os sons l e n entre vogais do latim. Exemplos:

Quando as vogais antes e depois do l ou n deletado são iguais, o português junta as duas numa só:

E entre certos encontros de vogais (aparentemente entre ea e entre eo), o português prefere inserir um i (produzindo eia, eio):

Por outro lado, quando o l ou n era geminado em latim, isto é, ll e nn, ele é mantido como l e n em português. Já em espanhol, o som resultante do ll do latim continua sendo escrito como ll, mas é pronunciado como o lh do português (com variações dependendo do dialeto), e o nn do latim se torna o ñ do espanhol (pronunciado aproximadamente como o nh do português). Exemplos:

O início

A outra diferença entre cheio e lleno é o som inicial. Nesse caso, nem o português nem o espanhol conservaram o som original do latim, mas pl e cl quase sempre viram ch em português e ll em espanhol. Outros exemplos:

Provavelmente havia alguma peculiaridade na pronúncia desses encontros em latim (ou pelo menos em alguns dialetos de latim), porque eles sofrem modificações em diversas outras línguas românicas também; em particular, em italiano as palavras acima são chiave (o ch tem som de k), chiamare, pioggia e piorare. No geral, o que se observa é uma palatalização desses encontros consonantais: a pronúncia deles tendeu a evoluir para um ponto de articulação mais próximo do palato (céu da boca). Meu palpite é que o l nesses encontros tinha um som mais próximo do nosso lh nesses dialetos (i.e., /klʲavis, plʲuvia/ (algo como clhávis, plhúvia)).

Surpreendentemente, o francês, que costuma ser uma festa de mudanças fonéticas, mantém ambos os encontros intactos (clef, clamer, pluie, pleurer).

Mudanças regulares

Ok. Como vimos, plenus do latim se torna cheio em português. O que vimos são duas mudanças fonéticas regulares na história do português: uma mudança de pl inicial para ch, e uma perda de n entre vogais. No geral, as mudanças de pronúncia que ocorrem ao longo da história de uma língua têm essa natureza regular: elas afetam certos sons em todas as palavras da língua, sempre que eles ocorrem em determinadas circunstâncias. Claro que como com toda regra, ocasionalmente há exceções, por diversos motivos, mas no geral se espera essa regularidade quando se está formulando uma regra que explique a relação entre duas línguas aparentadas (no caso, latim e português).

Mas espera um pouco, você me diz: o português também possui a palavra pleno (e plenitude), que apresenta tanto o pl inicial quanto o n intervocálico original de plenus. Como é que pode isso?

A resposta nesse caso é que pleno é uma palavra reimportada do latim, depois que esses sound shifts já tinham acontecido. O português (e demais línguas românicas, bem como o inglês) contêm inúmeras palavras desse tipo, tipicamente reintroduzidas a partir da época do Renascimento, quando a cultura clássica grega e romana entrou em alta novamente. O resultado é que freqüentemente o português tem duas versões de uma mesma palavra latina: uma herdada naturalmente do latim, passando pelas mudanças de pronúncia históricas da língua, e uma reimportada diretamente do latim, sem a passagem por essas mudanças. Tipicamente, essas palavras reintroduzidas têm um tom mais formal, enquanto as versões "nativas" têm um tom mais coloquial. Exemplos são cheio e pleno, (lugar) vago e vácuo, chave e clave, paço e palácio. Outras vezes o português tem uma palavra nativa, herdada do latim e passando pelas mudanças fonéticas esperados, e diversas palavras relacionadas importadas posteriormente do latim sem essas mudanças. Exemplos são vida (do latim vita) e vital; chuva (do latim pluvia) e pluvial; mês (do latim mensis) e mensal.

Ok, plenus

Vamos voltar para o latim. Plenus em latim significa – adivinhem só – cheio. Em latim também há um verbo relacionado, pleo, plere, que significa encher. O particípio desse verbo é pletus, que, combinado com a típica variedade de prefixos, nos dá palavras como repleto, completo (e, em inglês, deplete). De in- + plere obtemos implere, que é a origem de encher. De sub- + pleo obtemos supplere, de onde vem suprir (e supply, e suplemento). De com/con- + pleo obtemos complere, de onde vem cumprir (além de completo, e complemento).

Em última instância, pleo vem da raiz indo-européia *pleh₁. Outras palavras dessa mesma raiz são plus (e duplus, triplus, etc.) e polys em grego (de onde vem o nosso prefixo poli-).

Há muitas mil eras eu falei por aqui sobre a Lei de Grimm, que descreve a evolução de alguns sons do proto-indo-europeu nas línguas germânicas. Como visto lá, o p do proto-indo-europeu corresponde ao f nas línguas germânicas. E sure enough, full e fill vêm da mesma raiz *pelh₁ que nos dá pleno e cheio. Viel do alemão também vem da mesma raiz. (Esse v se pronuncia /f/. Curiosamente, o alemão vozeou o /f/ para /v/ antes de vogais na Idade Média e shiftou ele de volta para /f/ alguns séculos depois.)

E a essa altura, já estamos todos cheios do assunto.

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Trivia etymologica #1: much vs. mucho

2017-03-05 01:43 -0300. Tags: lang, etymology

Há muitos mil anos, explicando para alguém a diferença entre muy e mucho em espanhol, eu fiz uma analogia com o inglês: muy é como very em inglês, e modifica adjetivos e advérbios, e.g., muy rápido = very fast. Já mucho é como many em inglês, e modifica substantivos: muchas cosas = many things. Na verdade essa explicação é parcialmente correta: muchos no plural é como many, e é usado para substantivos contáveis (como em muchas cosas). Mas mucho no singular é como much, e é usado para substantivos não-contáveis, e.g., mucho dinero = much money.

Na época eu me perguntei: será que much e mucho são cognatas? Apesar da similaridade de som e significado, seria pouco provável que as duas palavras fossem cognatas (a menos que o inglês tivesse importado a palavra do espanhol, o que também seria pouco provável). Isso porque se houvesse uma raiz indo-européia comum para as duas palavras, ela teria passado por mudanças fonéticas diferentes no caminho até o inglês e até o espanhol, e seria pouco provável que o resultado final se parecesse tanto em ambos os branches.

As it turns out, as palavras realmente não são cognatas. much vem do inglês médio muche, muchel, do inglês antigo myċel, miċel. O ċ (som de "tch", ou /tʃ/ em IPA) do Old English é resultado de um shift de /k/ para /tʃ/ diante de /e/ e /i/. Assim, a palavra original era algo como /mikel/, que, em última instância, vem da raiz indo-européia *méǵh₂-, que significa 'grande'. É a mesma raiz de mega em grego, e de magnus em latim. *méǵh₂- com o sufixo *-is, *-yos resulta em latim nas palavras magis, que é a origem da palavra mais em português, e maior, que é a origem de (quem imaginaria?) maior em português. Resumindo, much, mega, mais e maior são todas cognatas.

Mucho, por outro lado, assim como o muito do português, vem do latim multus, que é também a origem do prefixo multi e de palavras como múltiplo. Segundo nosso amigo Wiktionary, multus vem da raiz indo-européia *mel-, e é cognata de melior (de onde vem melhor), que nada mais é do que *mel- com o mesmo sufixo *-yos que transforma mag(nus) em magis e maior.

Por fim, muy é uma contração do espanhol antigo muito, cuja derivação é trivial e sugerida como exercício para o leitor.

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And so it goes

2016-07-15 14:40 -0300. Tags: music, lang

Fazia muitos mil kalpas que eu queria achar a letra em cantonês da música tema do filme Tai Chi Master (太極張三豐). No fim consegui achar vendo um pedaço do filme com legendas em chinês, transcrevendo parte da legenda e procurando nas interwebs. A letra veio daqui, e a transcrição em Jyutping daqui. (As transcrições em vermelho são as que eu corrigi conferindo no Wiktionary as que eu achava que estavam erradas.) Aqui tem uma versão com legendas em inglês do trecho da música que aparece no filme, mas não sei quão confiável é a legenda.

zi6seon3sau2zung1bat1gin3goeng6jyu4ging3
zi6jau5sam1zung1jat1pin3wo4jyu4peng4

jik6loi4seon6sau6
hung1heoi1gin3fung1sing4
kong4bou6faa3sing1peng4
mou4lou6cyu2zi6jau5tin1meng6

dung6deoi3zing6
ceoi4deoi3sing4

ceoi4jyun4jap6sai3
jan1fung1ceot1sai3
mou4cing4jik6jau5cing4

ceoi4jyun4seon6sing3
bat1caang1bat1sing1
mou4cing4si6jau5cing4

* * *

daan6gaau3hau2zung1bat1syut3ci4jyu4lim1
daan6gin3sau2zung1nim1gwo1can4sai3cing4

wui6joeng4gap3jam1
sam1ngon1gaau3tin1zing6
jau4joek6gaau3fung1peng4
mou4lou6cyu2zi6jau5tin1meng6

dung6deoi3zing6
ceoi4deoi3sing4

ceoi4jyun4jap6sai3
jan1fung1ceot1sai3
mou4cing4jik6jau5cing4

ceoi4jyun4seon6sing3
bat1caang1bat1sing1
mou4cing4si6jau5cing4

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Ensinando inglês

2015-06-09 23:28 -0300. Tags: lang, comic, img, random

Quadrinho:

Quadro 1:

B: Como se diz "fazer" em inglês?

A: "Do".

B: Mas "do" não é pra fazer pergunta?

---

Quadro 2 (cena imaginada por A):

A: Ah, sim, o inglês usa "do" como um auxiliar dummy em perguntas, provavelmente como uma maneira de equilibrar a tendência histórica do inglês de deslocar o verbo para o começo em perguntas, como as demais línguas germânicas, com a tendência a  uma ordem SVO mais rígida, provavelmente motivada pela perda de morfologia que permita distinguir substantivos e verbos em inglês, o que pressiona a língua a desambiguar usando a sintaxe ...

---

Quadro 3:

A:

A: É, serve pra fazer pergunta também.

Baseado em fatos reais.

(E eu ia mudar o texto para "distinguir substantivos e verbos facilmente em inglês", mas já gastei meu estoque de paciência com o GIMP hoje.)

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Breakup

2015-05-14 20:55 -0300. Tags: lang, img, random, comic

Para fins de conservação para a posteridade, inflijo-vos este quadrinho que eu postei no reddit mais ou menos um ano atrás.

Quadrinho:
A: So you and Mary are over?
B: Yeah.

A: Why? You made such a good couple.
B: It would never work out. She thinks Proto-Indo-European had an */a/.
A: Oh. What?

B: I told her: "Maybe in the latest stages, but not originally. */a/ is really just underlying */eh₂/". But she shook her head and said: "Not typologically plausible". It was horrible.
A: WTF?
B: Yeah, I know!

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Ideogramas

2015-04-17 22:52 -0300. Tags: random, life, lang

me; hahahah, ganhei meu dia aqui
me: abri uma página que era pra ter um ícone de "loading"
µ: hm
me: mas a modinha agora é usar fontes com ícones ao invés de imagens
me: só que o meu browser tá setado pra forçar a usar as minhas fontes ao invés das da página
µ: hm
me: aí o loading virou um ideograma rotatório
µ: hsauoihasoihauias
me: e tu não vai achar graça nenhuma nisso, mas eu curti horrores :P
me: hmm, pelo visto tu achou graça :P
µ: HSAUOHSAIOSAHAOSIHASUOUI
µ: sim
µ: imaginei um ideograma chines significando "paz mundial que se iniciou na cozinha de um homem simplorio" rodando na tua tela

(Eu ainda não descobri que ideograma é esse, by the way.)

Update: O codepoint oficial do caractere (𤃉) é U+240C9. Consegui chegar nele procurando pelos componentes (氵厂禾禾心) no MDBG e depois no CHISE (que eu não conhecia até então). Mas ainda não descobri o que ele significa (o caractere mais próximo que encontrei com significado foi "trickle, drip; strain; dregs").

P.S.:

[Idegrama rotatório de significado desconhecido]

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Yeah, I code-switch heavily

2014-11-02 02:31 -0200. Tags: lang, life, ramble

Semana passada eu resolvi ir no Verda Kafo (evento esperantista que ocorre no último sábado de todo mês em Porto Alegre), depois de alguns meses de sumiço. Um verdkafano perguntou como ia o meu mestrado, e o Marcus mencionou que o meu blog tinha a resposta. A pedidos, eu passei a URL para ele e mais um dos participantes. Foi só algumas horas depois disso que eu pensei "bá, vão me encher o saco no próximo Verda Kafo por causa das frases em inglês strewn in no meio dos textos", mas aí já era tarde.

Esse fenômeno de alternar entre línguas em um mesmo diálogo ou em uma mesma frase é denominado code-switching.* O artigo da Wikipédia menciona uma porção de explicações sociológicas de por que as pessoas code-switcham. No meu caso, entretanto, for most part, acho que nenhuma das explicações apresentadas se encaixa. Eu simplesmente acho mais fácil dizer algumas coisas em inglês, às vezes porque a sintaxe do termo em inglês é diferente, às vezes sem nenhum motivo aparente. A grande maioria das coisas que eu leio são em inglês, e eu passo boa parte do meu tempo lendo, então acho que não é de admirar. Em tempos de outrora, quando eu estava aprendendo esperanto e o usava com mais freqüência, era bastante comum eu achar mais fácil dizer algumas coisas em esperanto do que em português, primariamente graças ao sistema de composição e derivação supimpa (eu ainda uso "X-ilo" ocasionalmente, onde X é uma palavra em português ou em esperanto, para me referir ao "utensílio de fazer X"), mas às vezes também porque a minha cuca queria dizer alguma coisa com uma estrutura sintática e o português exige outra. Um exemplo "clássico" disso com o inglês são frases como she was named after a tree, que eu nem tenho certeza de como dizer em português ("ela foi nomeada segundo uma árvore" doesn't quite cut it (como se diz "doesn't quite cut it" em português?)).

Poder-se-ia alegar que isso representa a decadência do português e o efeito do imperialismo estadunidense. Eu não sei. Em primeiro lugar, a identidade da língua portuguesa está bem saudável, já que são poucos os falantes de português que fazem code-switching. Em segundo lugar, assim como eu acho mais fácil dizer certas coisas em inglês, há uma porção de outras coisas que eu acho mais fácil dizer em português. Acontece simplesmente que, nas situações em que meus interlocutores falam tanto português quanto inglês, a conversa se dá primariamente em português (evidentemente), então é raro eu ter a oportunidade de falar inglês com frases em português strewn in. (Cabe notar que eu só atravesso termos em inglês quando eu sei que o interlocutor os há de entender, já que, imaginem vocês, comunicação exige entendimento entre as partes. Porém, em alguns casos eu tenho que fazer um esforço extra para dizer certas coisas em português ao invés de falar da maneira que me é mais confortável.)

Por fim, enquanto eu estava ideando este post, eu pensei comigo mesmo: "Seriously, tu tá te justificando pela maneira como tu escreve no teu próprio blog? Que diabos é isso, um blog de gente se explicando?" Não era nem para eu ter que escrever isso (de fato, eu não tenho que escrever isso), mas enfim.

_____

* Segundo o artigo, o uso de múltiplas línguas na escrita é chamado de linguagem macarrônica, mas aparentemente o termo é mais usado para descrever certas formas literárias em que a mistura tem algum propósito especial, freqüentemente humorístico. No caso aqui do blog, entretanto, geralmente o meu uso de inglês atravessado no meio do texto simplesmente reflete a maneira como eu falo quando sei que o interlocutor entende ambas as línguas. No geral, eu tendo a fazer isso mais nos posts mais "pessoais" e menos nos posts mais informativos. Acho.

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