Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Sometimes in English.

Trivia etymologica #3: -ães, -ãos, -ões

2017-08-17 13:29 -0300. Tags: lang, etymology

Em português, palavras terminadas em -ão têm três possíveis terminações de plural diferentes: -ães (cão → cães), -ãos (mão → mãos) e -ões (leão → leões).

Como é que pode isso?

Esse é mais um caso em que olhar para o espanhol pode nos dar uma idéia melhor do que está acontecendo. Vamos pegar algumas palavras representativas de cada grupo e ver como se comportam os equivalentes em espanhol:

Singular Plural
Português Espanhol Português Espanhol
-ães cão can cães canes
capitão capitán capitães capitanes
alemão alemán alemães alemanes
-ãos mão mano mãos manos
irmão hermano irmãos hermanos
cidadão ciudadano cidadãos ciudadanos
-ões leão león leões leones
nação nación nações naciones
leão león leões leones

O que nós observamos é que em espanhol, cada grupo de palavras tem uma terminação diferente tanto no singular (-án, -ano, -ón) quanto no plural (-anes, -anos, -ones), enquanto em português, todas têm a mesma terminação no singular (-ão), mas terminações distintas no plural (-ães, -ãos, -ões). A relação entre as terminações no plural em espanhol* e português é bem direta: o português perdeu o n entre vogais (como já vimos acontecer no episódio anterior), mas antes de sair de cena o n nasalizou a vogal anterior, i.e, anes → ães, anos → ãos, ones → ões.

Já no singular, as três terminações se fundiram em português. O que provavelmente aconteceu (e eu preciso arranjar mais material sobre a história fonológica do português) é que o mesmo processo de perda do n + nasalização ocorreu com as terminações do singular (i.e., algo como can → cã, mano → mão, leon → leõ), e com o tempo essas terminações se "normalizaram" na terminação mais comum -ão. Como conseqüência, o singular perdeu a distinção entre as três terminações, enquanto o plural segue com três terminações distintas.

_____

* Tecnicamente eu não deveria estar partindo das formas do espanhol para chegar nas do português, mas sim partir da língua mãe de ambas, i.e., o dialeto de latim vulgar falado na Península Ibérica. Porém, nesse caso em particular o espanhol preserva essencialmente as mesmas terminações da língua mãe, então não há problema em derivar diretamente as formas do português a partir das do espanhol.

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Trivia etymologica #2: cheio, full

2017-03-13 00:17 -0300. Tags: lang, etymology

Seguindo o tema de fartura do último episódio, começaremos nosso passeio etimológico de hoje com a palavra cheio. Cheio vem do latim plenus. É uma mudança fonética e tanto, então vamos por partes.

O meio

Cheio em espanhol é lleno. Olhar para o espanhol freqüentemente ajuda a entender a etimologia de uma palavra em português, porque o espanhol conserva alguns sons que se perderam em português, e vice-versa. Neste caso, o espanhol conservou o n de plenus que o português perdeu. O português tem uma séria mania de perder os sons l e n entre vogais do latim. Exemplos:

Quando as vogais antes e depois do l ou n deletado são iguais, o português junta as duas numa só:

E entre certos encontros de vogais (aparentemente entre ea e entre eo), o português prefere inserir um i (produzindo eia, eio):

Por outro lado, quando o l ou n era geminado em latim, isto é, ll e nn, ele é mantido como l e n em português. Já em espanhol, o som resultante do ll do latim continua sendo escrito como ll, mas é pronunciado como o lh do português (com variações dependendo do dialeto), e o nn do latim se torna o ñ do espanhol (pronunciado aproximadamente como o nh do português). Exemplos:

O início

A outra diferença entre cheio e lleno é o som inicial. Nesse caso, nem o português nem o espanhol conservaram o som original do latim, mas pl e cl quase sempre viram ch em português e ll em espanhol. Outros exemplos:

Provavelmente havia alguma peculiaridade na pronúncia desses encontros em latim (ou pelo menos em alguns dialetos de latim), porque eles sofrem modificações em diversas outras línguas românicas também; em particular, em italiano as palavras acima são chiave (o ch tem som de k), chiamare, pioggia e piorare. No geral, o que se observa é uma palatalização desses encontros consonantais: a pronúncia deles tendeu a evoluir para um ponto de articulação mais próximo do palato (céu da boca). Meu palpite é que o l nesses encontros tinha um som mais próximo do nosso lh nesses dialetos (i.e., /klʲavis, plʲuvia/ (algo como clhávis, plhúvia)).

Surpreendentemente, o francês, que costuma ser uma festa de mudanças fonéticas, mantém ambos os encontros intactos (clef, clamer, pluie, pleurer).

Mudanças regulares

Ok. Como vimos, plenus do latim se torna cheio em português. O que vimos são duas mudanças fonéticas regulares na história do português: uma mudança de pl inicial para ch, e uma perda de n entre vogais. No geral, as mudanças de pronúncia que ocorrem ao longo da história de uma língua têm essa natureza regular: elas afetam certos sons em todas as palavras da língua, sempre que eles ocorrem em determinadas circunstâncias. Claro que como com toda regra, ocasionalmente há exceções, por diversos motivos, mas no geral se espera essa regularidade quando se está formulando uma regra que explique a relação entre duas línguas aparentadas (no caso, latim e português).

Mas espera um pouco, você me diz: o português também possui a palavra pleno (e plenitude), que apresenta tanto o pl inicial quanto o n intervocálico original de plenus. Como é que pode isso?

A resposta nesse caso é que pleno é uma palavra reimportada do latim, depois que esses sound shifts já tinham acontecido. O português (e demais línguas românicas, bem como o inglês) contêm inúmeras palavras desse tipo, tipicamente reintroduzidas a partir da época do Renascimento, quando a cultura clássica grega e romana entrou em alta novamente. O resultado é que freqüentemente o português tem duas versões de uma mesma palavra latina: uma herdada naturalmente do latim, passando pelas mudanças de pronúncia históricas da língua, e uma reimportada diretamente do latim, sem a passagem por essas mudanças. Tipicamente, essas palavras reintroduzidas têm um tom mais formal, enquanto as versões "nativas" têm um tom mais coloquial. Exemplos são cheio e pleno, (lugar) vago e vácuo, chave e clave, paço e palácio. Outras vezes o português tem uma palavra nativa, herdada do latim e passando pelas mudanças fonéticas esperados, e diversas palavras relacionadas importadas posteriormente do latim sem essas mudanças. Exemplos são vida (do latim vita) e vital; chuva (do latim pluvia) e pluvial; mês (do latim mensis) e mensal.

Ok, plenus

Vamos voltar para o latim. Plenus em latim significa – adivinhem só – cheio. Em latim também há um verbo relacionado, pleo, plere, que significa encher. O particípio desse verbo é pletus, que, combinado com a típica variedade de prefixos, nos dá palavras como repleto, completo (e, em inglês, deplete). De in- + plere obtemos implere, que é a origem de encher. De sub- + pleo obtemos supplere, de onde vem suprir (e supply, e suplemento). De com/con- + pleo obtemos complere, de onde vem cumprir (além de completo, e complemento).

Em última instância, pleo vem da raiz indo-européia *pleh₁. Outras palavras dessa mesma raiz são plus (e duplus, triplus, etc.) e polys em grego (de onde vem o nosso prefixo poli-).

Há muitas mil eras eu falei por aqui sobre a Lei de Grimm, que descreve a evolução de alguns sons do proto-indo-europeu nas línguas germânicas. Como visto lá, o p do proto-indo-europeu corresponde ao f nas línguas germânicas. E sure enough, full e fill vêm da mesma raiz *pelh₁ que nos dá pleno e cheio. Viel do alemão também vem da mesma raiz. (Esse v se pronuncia /f/. Curiosamente, o alemão vozeou o /f/ para /v/ antes de vogais na Idade Média e shiftou ele de volta para /f/ alguns séculos depois.)

E a essa altura, já estamos todos cheios do assunto.

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Trivia etymologica #1: much vs. mucho

2017-03-05 01:43 -0300. Tags: lang, etymology

Há muitos mil anos, explicando para alguém a diferença entre muy e mucho em espanhol, eu fiz uma analogia com o inglês: muy é como very em inglês, e modifica adjetivos e advérbios, e.g., muy rápido = very fast. Já mucho é como many em inglês, e modifica substantivos: muchas cosas = many things. Na verdade essa explicação é parcialmente correta: muchos no plural é como many, e é usado para substantivos contáveis (como em muchas cosas). Mas mucho no singular é como much, e é usado para substantivos não-contáveis, e.g., mucho dinero = much money.

Na época eu me perguntei: será que much e mucho são cognatas? Apesar da similaridade de som e significado, seria pouco provável que as duas palavras fossem cognatas (a menos que o inglês tivesse importado a palavra do espanhol, o que também seria pouco provável). Isso porque se houvesse uma raiz indo-européia comum para as duas palavras, ela teria passado por mudanças fonéticas diferentes no caminho até o inglês e até o espanhol, e seria pouco provável que o resultado final se parecesse tanto em ambos os branches.

As it turns out, as palavras realmente não são cognatas. much vem do inglês médio muche, muchel, do inglês antigo myċel, miċel. O ċ (som de "tch", ou /tʃ/ em IPA) do Old English é resultado de um shift de /k/ para /tʃ/ diante de /e/ e /i/. Assim, a palavra original era algo como /mikel/, que, em última instância, vem da raiz indo-européia *méǵh₂-, que significa 'grande'. É a mesma raiz de mega em grego, e de magnus em latim. *méǵh₂- com o sufixo *-is, *-yos resulta em latim nas palavras magis, que é a origem da palavra mais em português, e maior, que é a origem de (quem imaginaria?) maior em português. Resumindo, much, mega, mais e maior são todas cognatas.

Mucho, por outro lado, assim como o muito do português, vem do latim multus, que é também a origem do prefixo multi e de palavras como múltiplo. Segundo nosso amigo Wiktionary, multus vem da raiz indo-européia *mel-, e é cognata de melior (de onde vem melhor), que nada mais é do que *mel- com o mesmo sufixo *-yos que transforma mag(nus) em magis e maior.

Por fim, muy é uma contração do espanhol antigo muito, cuja derivação é trivial e sugerida como exercício para o leitor.

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And so it goes

2016-07-15 14:40 -0300. Tags: music, lang

Fazia muitos mil kalpas que eu queria achar a letra em cantonês da música tema do filme Tai Chi Master (太極張三豐). No fim consegui achar vendo um pedaço do filme com legendas em chinês, transcrevendo parte da legenda e procurando nas interwebs. A letra veio daqui, e a transcrição em Jyutping daqui. (As transcrições em vermelho são as que eu corrigi conferindo no Wiktionary as que eu achava que estavam erradas.) Aqui tem uma versão com legendas em inglês do trecho da música que aparece no filme, mas não sei quão confiável é a legenda.

zi6seon3sau2zung1bat1gin3goeng6jyu4ging3
zi6jau5sam1zung1jat1pin3wo4jyu4peng4

jik6loi4seon6sau6
hung1heoi1gin3fung1sing4
kong4bou6faa3sing1peng4
mou4lou6cyu2zi6jau5tin1meng6

dung6deoi3zing6
ceoi4deoi3sing4

ceoi4jyun4jap6sai3
jan1fung1ceot1sai3
mou4cing4jik6jau5cing4

ceoi4jyun4seon6sing3
bat1caang1bat1sing1
mou4cing4si6jau5cing4

* * *

daan6gaau3hau2zung1bat1syut3ci4jyu4lim1
daan6gin3sau2zung1nim1gwo1can4sai3cing4

wui6joeng4gap3jam1
sam1ngon1gaau3tin1zing6
jau4joek6gaau3fung1peng4
mou4lou6cyu2zi6jau5tin1meng6

dung6deoi3zing6
ceoi4deoi3sing4

ceoi4jyun4jap6sai3
jan1fung1ceot1sai3
mou4cing4jik6jau5cing4

ceoi4jyun4seon6sing3
bat1caang1bat1sing1
mou4cing4si6jau5cing4

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Ensinando inglês

2015-06-09 23:28 -0300. Tags: lang, comic, img, random

Quadrinho:

Quadro 1:

B: Como se diz "fazer" em inglês?

A: "Do".

B: Mas "do" não é pra fazer pergunta?

---

Quadro 2 (cena imaginada por A):

A: Ah, sim, o inglês usa "do" como um auxiliar dummy em perguntas, provavelmente como uma maneira de equilibrar a tendência histórica do inglês de deslocar o verbo para o começo em perguntas, como as demais línguas germânicas, com a tendência a  uma ordem SVO mais rígida, provavelmente motivada pela perda de morfologia que permita distinguir substantivos e verbos em inglês, o que pressiona a língua a desambiguar usando a sintaxe ...

---

Quadro 3:

A:

A: É, serve pra fazer pergunta também.

Baseado em fatos reais.

(E eu ia mudar o texto para "distinguir substantivos e verbos facilmente em inglês", mas já gastei meu estoque de paciência com o GIMP hoje.)

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Breakup

2015-05-14 20:55 -0300. Tags: lang, img, random, comic

Para fins de conservação para a posteridade, inflijo-vos este quadrinho que eu postei no reddit mais ou menos um ano atrás.

Quadrinho:
A: So you and Mary are over?
B: Yeah.

A: Why? You made such a good couple.
B: It would never work out. She thinks Proto-Indo-European had an */a/.
A: Oh. What?

B: I told her: "Maybe in the latest stages, but not originally. */a/ is really just underlying */eh₂/". But she shook her head and said: "Not typologically plausible". It was horrible.
A: WTF?
B: Yeah, I know!

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Ideogramas

2015-04-17 22:52 -0300. Tags: random, life, lang

me; hahahah, ganhei meu dia aqui
me: abri uma página que era pra ter um ícone de "loading"
µ: hm
me: mas a modinha agora é usar fontes com ícones ao invés de imagens
me: só que o meu browser tá setado pra forçar a usar as minhas fontes ao invés das da página
µ: hm
me: aí o loading virou um ideograma rotatório
µ: hsauoihasoihauias
me: e tu não vai achar graça nenhuma nisso, mas eu curti horrores :P
me: hmm, pelo visto tu achou graça :P
µ: HSAUOHSAIOSAHAOSIHASUOUI
µ: sim
µ: imaginei um ideograma chines significando "paz mundial que se iniciou na cozinha de um homem simplorio" rodando na tua tela

(Eu ainda não descobri que ideograma é esse, by the way.)

Update: O codepoint oficial do caractere (𤃉) é U+240C9. Consegui chegar nele procurando pelos componentes (氵厂禾禾心) no MDBG e depois no CHISE (que eu não conhecia até então). Mas ainda não descobri o que ele significa (o caractere mais próximo que encontrei com significado foi "trickle, drip; strain; dregs").

P.S.:

[Idegrama rotatório de significado desconhecido]

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Yeah, I code-switch heavily

2014-11-02 02:31 -0200. Tags: lang, life, ramble

Semana passada eu resolvi ir no Verda Kafo (evento esperantista que ocorre no último sábado de todo mês em Porto Alegre), depois de alguns meses de sumiço. Um verdkafano perguntou como ia o meu mestrado, e o Marcus mencionou que o meu blog tinha a resposta. A pedidos, eu passei a URL para ele e mais um dos participantes. Foi só algumas horas depois disso que eu pensei "bá, vão me encher o saco no próximo Verda Kafo por causa das frases em inglês strewn in no meio dos textos", mas aí já era tarde.

Esse fenômeno de alternar entre línguas em um mesmo diálogo ou em uma mesma frase é denominado code-switching.* O artigo da Wikipédia menciona uma porção de explicações sociológicas de por que as pessoas code-switcham. No meu caso, entretanto, for most part, acho que nenhuma das explicações apresentadas se encaixa. Eu simplesmente acho mais fácil dizer algumas coisas em inglês, às vezes porque a sintaxe do termo em inglês é diferente, às vezes sem nenhum motivo aparente. A grande maioria das coisas que eu leio são em inglês, e eu passo boa parte do meu tempo lendo, então acho que não é de admirar. Em tempos de outrora, quando eu estava aprendendo esperanto e o usava com mais freqüência, era bastante comum eu achar mais fácil dizer algumas coisas em esperanto do que em português, primariamente graças ao sistema de composição e derivação supimpa (eu ainda uso "X-ilo" ocasionalmente, onde X é uma palavra em português ou em esperanto, para me referir ao "utensílio de fazer X"), mas às vezes também porque a minha cuca queria dizer alguma coisa com uma estrutura sintática e o português exige outra. Um exemplo "clássico" disso com o inglês são frases como she was named after a tree, que eu nem tenho certeza de como dizer em português ("ela foi nomeada segundo uma árvore" doesn't quite cut it (como se diz "doesn't quite cut it" em português?)).

Poder-se-ia alegar que isso representa a decadência do português e o efeito do imperialismo estadunidense. Eu não sei. Em primeiro lugar, a identidade da língua portuguesa está bem saudável, já que são poucos os falantes de português que fazem code-switching. Em segundo lugar, assim como eu acho mais fácil dizer certas coisas em inglês, há uma porção de outras coisas que eu acho mais fácil dizer em português. Acontece simplesmente que, nas situações em que meus interlocutores falam tanto português quanto inglês, a conversa se dá primariamente em português (evidentemente), então é raro eu ter a oportunidade de falar inglês com frases em português strewn in. (Cabe notar que eu só atravesso termos em inglês quando eu sei que o interlocutor os há de entender, já que, imaginem vocês, comunicação exige entendimento entre as partes. Porém, em alguns casos eu tenho que fazer um esforço extra para dizer certas coisas em português ao invés de falar da maneira que me é mais confortável.)

Por fim, enquanto eu estava ideando este post, eu pensei comigo mesmo: "Seriously, tu tá te justificando pela maneira como tu escreve no teu próprio blog? Que diabos é isso, um blog de gente se explicando?" Não era nem para eu ter que escrever isso (de fato, eu não tenho que escrever isso), mas enfim.

_____

* Segundo o artigo, o uso de múltiplas línguas na escrita é chamado de linguagem macarrônica, mas aparentemente o termo é mais usado para descrever certas formas literárias em que a mistura tem algum propósito especial, freqüentemente humorístico. No caso aqui do blog, entretanto, geralmente o meu uso de inglês atravessado no meio do texto simplesmente reflete a maneira como eu falo quando sei que o interlocutor entende ambas as línguas. No geral, eu tendo a fazer isso mais nos posts mais "pessoais" e menos nos posts mais informativos. Acho.

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Orthographica II: ortografia etimológica, o latim e o proto-indo-europeu

2014-08-23 00:05 -0300. Tags: lang, rant

No último post eu falei um pouco sobre a questão da reforma ortográfica do português e argumentei contra a idéia de que a reforma seria um "emburrecimento da língua". Talvez você queira lê-lo antes de continuar. Neste post, apresento mais alguns pensamentos que tive sobre o assunto.

A idéia de simplificar a ortografia suscita uma tremenda oposição, como os comentários na notícia linkada no último post servem para exemplificar. Num nível mais superficial, há a oposição à mudança puramente por ser uma mudança. Não há muito o que dizer aqui além do que eu já disse no último post; orthographia não se escreve mais assim desde 1943 e ninguém está sentindo falta desses hs. Da mesma forma, acredito que ninguém ache ruim escrever bife e futebol ao inves de beef e football, e no entanto assim foi há nem tantas décadas assim.

Um argumento mais elaborado é de que a grafia das palavras deve ser mantida como está para refletir a etimologia das palavras. Por exemplo, exibir se escreve com x porque provém da palavra latina exhibere, que se escreve com x (em latim, esse x tem de fato som de ks). Manter essa ortografia é bom porque evidencia o prefixo ex-, que é comum a tantas outras palavras e tem um significado mais ou menos bem-definido. Similarmente, escrever biologia ao invés de biolojia é bom porque evidencia a relação dessa palavra com a palavra biólogo. Se escrevêssemos tudo como falamos, essas relações entre as palavras, que são visíveis em suas formas gregas e latinas originais, seriam obscurecidas.

Acontece, entretanto, que quando os romanos começaram a escrever o latim, eles o escreveram exatamente como o falavam: em latim clássico, c sempre tem som de [k] (Cicero se lê "quíquero"), g tem sempre som de [g] (magis se lê "máguis"), x sempre tem som de [ks], as consoantes duplas (como em anno) realmente eram pronunciadas mais longas, e assim por diante. Em geral, quando uma língua recém adota um sistema de escrita [alfabético], ele tende a refletir bastante fielmente a fala; é só com o tempo que, à medida em que a língua vai mudando, a escrita resiste a acompanhar essas mudanças, e perde-se a relação direta entre a grafia e a pronúncia.

Ok, mas em latim não tem problema escrever como se fala, porque latim é latim e, sendo uma língua mais "pura" e menos "corroída" pela ação do tempo, essas relações que para nós só são visíveis na ortografia eram parte da língua latina viva, e portanto sua escrita baseada na fala as conserva, right?

Well, não é bem assim. O latim não brotou do nada. Assim como o português, o espanhol, o italiano, o francês, etc. derivam de uma língua anterior (o latim), e assim formam a família das línguas latinas ou românicas, também o latim, o grego, o sânscrito, o germânico, o eslávico, etc. derivam de uma língua comum, e formam assim a família das línguas indo-européias. O problema é que essa língua é tão antiga que nunca chegou a ser escrita; porém, é possível observar as similaridades e diferenças das línguas descendentes que ela deixou e reconstruir com alguma segurança como era essa língua original. A essa língua reconstruída denomina-se proto-indo-europeu.

E assim como o português é uma versão "corroída" de latim, o latim é uma versão "corroída" de proto-indo-europeu, e algumas relações entre palavras que eram visíveis em proto-indo-europeu ou em proto-latim não o são em latim. Voltando ao nosso exemplo clássico, exibir (pronunciado "ezibir") em latim é exhibere (pronunciado "eks-híbere", sem nenhuma letra muda nem irregularidade), mostrando claramente na pronúncia e na escrita o prefixo ex-. Mas e o que fazer do -hibere? Pois acontece que hibere nada mais é do que uma versão "corrompida" do verbo habere, que dá origem ao nosso haver. Essa mudança habere → hibere não é de uma natureza muito diferente da pronúncia de comi como "cumi" ou escola como "iscola" em português brasileiro moderno. E no entanto, essa "corrupção" que ocorreu entre o proto-latim e o latim foi tomada como forma oficial em latim; em latim clássico, se escreve como se fala.

Outro exemplo: as sequências de sons /ts/ e /ds/ do proto-indo-europeu se perderam em latim. Assim, "potentes" (no plural) em latim é potentes, mas no singular é potens, pois o t da forma original (*potents) se perdeu. Da mesma forma, a conjugação do verbo "ser" (esse) em latim é sum, es, est (de onde vem o nosso sou, és, é), mas a conjugação do verbo "poder", que em latim é derivado da expressão potis esse ("ser capaz") é possum, potes, potest, pois o t do *potsum original se perdeu, e essa perda é refletida na escrita.

E quanto ao próprio verbo "ser"? Sum, es, est, sumus, estis, sunt não é exatamente um primor de regularidade. Ok, o verbo "ser" é irregular em tudo que é língua, especialmente nas línguas indo-européias... interessante essa última observação, não? Acontece que a forma reconstruída desse verbo em proto-indo-europeu é h₁ésmi, h₁ési, h₁ésti, h₁sm̥ós, h₁sté, h₁sénti, que tem uma cara bem mais regular; até dá para distinguir um radical: h₁es-. (Em proto-indo-europeu, é comum os radicais terem a forma consoante-vogal-consoante, onde a vogal alterna entre e, o e ausência de vogal ao longo da conjugação ou declinação.) Agora o que é esse h₁? Trata-se de uma das chamadas consoantes laringeais do PIE. As laringeais não são nada mais, nada menos do que sons similares a h, que se perderam em todas as línguas descendentes exceto na família do hitita, deixando apenas vestígios de sua anterior existência (normalmente na forma de vogais ou efeitos sobre vogais adjacentes) na maioria das línguas indo-européias. That's right, os hs do PIE já tinham ficado mudos 3 mil anos atrás e os romanos nem chegaram a tomar conhecimento de sua existência, e portanto eles não são refletidos na escrita do latim. (Os hs do latim provêm de outros fonemas do PIE, tais como /gʰ/, que se "corromperam" e transformaram-se em h com o tempo.) Se os falantes de proto-indo-europeu estivessem vivos e dotados de escrita nessa época, eles teriam tido a mesma reação diante da escrita do latim que nós temos diante de propostas de reforma ortográfica em português.


I disapprove of your orthographic developments!

O ponto onde eu quero chegar é: defende-se a manutenção da ortografia atual para conservar as relações etimológicas com o latim, língua-origem do português, mas o próprio latim não preserva em sua ortografia diversas relações etimológicas com a sua língua-origem. Se os falantes de latim clássico podiam escrever como falavam, por que nós não podemos?

Disclaimer

Não, embora possa parecer, eu não estou promulgando a reforma; no momento não expresso nem apoio nem oposição. Meu intento foi unicamente demonstrar uma fraqueza do argumento pró grafia etimológica. Certamente há outros argumentos possíveis em favor da grafia etimológica (por exemplo, que manter uma proximidade com a ortografia do latim facilita nossa vida para aprender outras línguas latinas e o inglês), bem como contra (escrevemos amigo e amizade (do latim amicus e amicitate-) e nem por isso deixamos de perceber a relação entre essas palavras). Decida por si mesmo. Ou não.

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Orthographica

2014-08-20 01:31 -0300. Tags: lang, rant, ramble

A notícia de que estão querendo propor outra reforma ortográfica me trouxe à mente umas cousas de que eu gostaria de falar.

Da inconsistência da ortografia vigente

Certa feita, estávamos eu e familiares percorrendo as verdejantes terras de Viamãoheimr, quando um dos indivíduos exclamou algo do tipo: "Olha lá, a placa escrito 'ezibida' com 'z'. E aposto que a pessoa não escreveu assim pra ser diferente, não sabia mesmo." O primeiro pensamento que me veio à mente foi:

  1. Será que, ao invés de zoar da ignorância do povo, nós não devêssemos ficar é preocupados com o estado da educação neste país?

Mas logo depois me ocorreu outro:

  1. Não é fantástico que hoje em dia praticamente todo o mundo saiba ler e escrever, ainda que imperfeitamente, coisa que não era verdade dois séculos atrás nem durante a maior parte da história da escrita?

E, finalmente:

  1. "Exibida" ainda se escreve com "x", really?

É quanto a este último que eu pretendo falar.

A nossa ortografia mantém um bocado de irregularidades (no sentido de que nem toda letra ou seqüência de letras corresponde a um único som e vice-versa), em nome de conservar a etimologia das palavras. Por exemplo, exibir se escreve com x para manter a ortografia similar à palavra latina exhibere que lhe dá origem. Seria um argumento válido para a manutenção da ortografia vigente, se não fosse pelo fato de que esse princípio é seguido de maneira bastante inconsistente.

Por exemplo, diversas palavras que contêm os prefixos/preposições latinos ex- e extra- são escritas com x em português, tais como extrair, extraditar, etc. Mas estranho (do latim extraneus) se escreve com s, sem nenhum bom motivo (que me conste). Em um caso extremo, extensão se escreve com x, mas estender se escreve com s.

O h etimológico é mantido em início de palavra, mas não em outras posições: habitar se escreve com h, mas desabitar não. Que princípio justifica a manutenção em um caso e não no outro?

C tem som de [k] ou de [s] dependendo do contexto, o que ajuda a manter a ortografia de palavras como pouco e paucidade consistente, mesmo já fazendo uns mil e tantos anos que esses dois cs não têm mais o mesmo som. Por outro lado, o passado de fico é fiquei, uma mudança de c para qu que não ocorre por nenhum motivo etimológico, mas tão somente para contornar a irregularidade da pronúncia da letra c em português.

"Estão emburrecendo o português"

Na notícia que me linkaram sobre o assunto, pode-se encontrar um bocado de comentários dizendo que a proposta "emburrece o português", "é a legalização da burrice", "emburrecer a gramática", "E são regras, pelo amor de Deus! Isso não pode ser aprovado, são várias gerações que aprenderam a escrever seguindo uma regra", etc., etc. Eu não perdi muito tempo na referida seção de comentários porque a minha tolerância a essas coisas hoje em dia é muito pequena, mas deu para dar uma idéia. (Também havia uma boa dose de comentários pró-reforma no texto. Curiosamente, dei uma olhada na versão de papel da Zero Hora de hoje ontem, na seção de mensagens dos leitores, e haviam publicado uns quatro comentários recebidos via Facebook sobre o assunto, nenhum pró-reforma. Chamamos isso de imparcialidade.)

Esses comentários me corroem o fígado por duas razões. Em primeiro lugar: reformar a ortografia "emburrece a língua" (tanto quanto isso faz sentido)? Então o que fazer das reformas que eliminaram o ph, o h de exhibido, o y de pyrâmide, o ch de chaos, a consoante dupla de innovar? Elas "emburreceram a língua"? Não são tantas gerações assim que aprenderam a escrever em qualquer dada ortografia no Brasil; a última reforma foi aprovada em 2009, a anterior em 1971 e a anterior a essa em 1943.

Em segundo lugar: a ortografia não é a língua; estritamente, a ortografia não é sequer parte da gramática. Mesmo que o português deixasse de ser escrito, ou que fosse escrito em alfabeto cirílico, continuaria sendo a mesma língua, com as mesmas regras gramaticais. Evidentemente, as línguas costumam ter um sistema de escrita oficial associado a si, mas a língua é independente do sistema de escrita usado para escrevê-la (há inclusive línguas que possuem múltiplos sistemas de escrita oficiais).

Então tu defende a reforma?

Não. Muito embora eu discorde da noção de que a reforma "emburrece a língua", nem por isso eu aprovo a tal reforma. Na verdade eu sequer aprovo ou (tanto quanto me é possível) adoto a última reforma aprovada (como alguns leitores hão de ter notado pelo meu uso da grafia "idéia"). Na verdade eu tenho cá para mim sérias ressalvas quanto à existência de um órgão regulador da língua e da regulação da norma ortográfica por lei; o inglês vive sem um órgão regulador e ninguém sofreu danos deletérios por conta disso. (Ok, talvez a ortografia do inglês possa ser considerada um dano deletério.) Especialmente quando reformas são promulgadas sem qualquer consulta à população (isso é um problema geral da democracia representativa, but I digress).

Voltando especificamente à última reforma proposta: este pessoal do R7 resolveu falar com El Hombre Marcos Bagno, que levanta alguns pontos interessantes com os quais qualquer reforma que pretenda aproximar a escrita da fala tem que lidar. Por exemplo, em mestre o s tem som de "s", mas em mesmo tem som de "z"; deveremos escrever mezmo? Em alguns lugares, o s de mestre tem som de "s", em outros tem som de "x"; deveremos aceitar tanto mestre quanto mextre como grafias válidas?

De qualquer forma, a proposta tal como está sendo apresentada parece não ter sido muito bem pensada. Em particular, pelo menos na reforma tal como os jornais a estão apresentando, tanto c quanto q seriam mantidos com som de [k], e o som inicial de "rato" continuaria sendo escrito com "r" no início de palavra e "rr" no meio. Se é para fazer uma reforma radical como a que se está propondo, então que pelo menos adotem uma ortografia realmente lógica, e que as exceções, se houverem, sejam justificadas por algum guiding principle.

Alguns dos proponentes da reforma dizem que "A simplificação ortográfica é a porta para a eliminação do analfabetismo". Será? O Japão usa um sistema de escrita absurdamente complicado, que consiste de dois silabários e um conjunto de mais ou menos dois mil ideogramas, cuja leitura pode ser drasticamente diferente dependendo do contexto (今 se lê "ima" e 日 se lê "hi", mas 今日 se lê "kyō"), e no entanto o Japão tem uma taxa de alfabetização de mais de oito mil 99% (fonte). Claro que, pode-se argumentar, quanto mais complexo o sistema de escrita, mais tempo se perde apredendo-o que poderia ser usado de maneira mais útil para outras coisas, e mais inacessível ele se torna a quem não tem esse tempo para dedicar a aprendê-lo (e.g., quem não termina o ensino fundamental). Por outro lado, não me é claro se haveria um ganho significativo em termos de alfabetização passando da ortografia atual do português (que já é bastante próxima da fala) para uma ortografia mais regular.

Então tu defende o quê?

Eu não defendo nada. Isso aqui é para terminar que nem um daqueles episódios do South Park que começam com uma questão polêmica e no final se fica com a impressão de que ambos os lados da discussão estão errados.

(Ok, eu pessoalmente defendo o status quo. Aliás, o status quo ante, de volta à ortografia anterior à última reforma. Mas neste post aqui eu não tento defender nada.)

Caveat commentator

Eu tenho uma experiência prévia ruim com posts que escapam para o mundo selvagem e atraem comentários menos-que-positivos. Na verdade a negatividade da experiência em questão foi amplificada pelo fato de eu ter sido pego absolutamente de surpresa na ocasião; hoje em dia eu já posto psicologicamente preparado para estar errado na Internet. De qualquer forma, dado o teor dos comentários na notícia da Zero Hora linkada, parece-me boa precaução deixar um recado a quem pretender comentar o post: caso pretenda deixar sua opinião sobre a reforma, faça-o apenas se for apresentar argumentos para defender sua posição. Comentários do tipo "eu aprovo", "eu desaprovo", "oh, o emburrecimento da língua", "meu, tu mal consegue escrever um parágrafo em português sem tacar um termo em inglês no meio ou conjugar a segunda pessoa errado, quem é tu pra falar de português?", etc., serão sumariamente eliminados, e os autores serão sumariamente insultados (vou mostrar a língua para eles).

Update: Assista ao próximo capítulo de Orthographica: uma batalha entre fonemas e grafemas.

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