Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Às vezes em Português, sometimes in English.

Prevérbios

2013-09-18 00:16 -0300. Tags: lang, em-portugues

Muitas pessoas ficam perplectas ao se depararem pela primeira vez com os assim chamados phrasal verbs do inglês, construções verbo+partícula tais como give up, give in, give away, throw up, take off, take over, blow up, em que o significado da expressão nem sempre é óbvio a partir do significado das partes. Acontece que o português está recheado de um primo distante dos phrasal verbs herdado do latim. Tão recheado que só até agora neste post eu já usei pelo menos seis dessas construções (possivelmente sete, dependendo (oito!) de o que conta como "phrasal verb").

Os phrasal verbs são uma feature comum entre as línguas germânicas. Em alemão e holandês, eles existem na forma de verbos separáveis, i.e., construções partícula+verbo em que a partícula ocorre incorporada ao verbo ou não dependendo da construção verbal. Entre as línguas nórdicas, construções análogas à do inglês também parecem ser bastante comuns (por exemplo, "give up" em sueco é "ge upp" [update: e em islandês a expressão "gefa upp" também existe, mas aparentemente significa "revelar, deixar escapar"]).

Essa característica das línguas germânicas tem origem em um fenômeno análogo em proto-indo-europeu. Em PIE, algumas partículas adverbiais ou posposicionais (não há uma distinção muito forte entre esses dois tipos de partícula em PIE, da mesma maneira que o status de algumas partículas como advérbio ou preposição é duvidoso/variável em inglês [citation needed]), convencionalmente chamadas prevérbios, possuem efeitos similares sobre o significado de diversos verbos, e podem ser incorporadas ou não ao verbo, de maneira similar ao que ocorre em alemão e holandês. Em latim arcaico, essa situação se preserva. O exemplo clássico é a expressão "sub vos placo" (= "vos supplico"), graças a um camaradinha que escreveu:

Posteriormente, essas partículas passaram a ser obrigatoriamente incorporadas ao verbo em latim. (Em latim, a incorporação de prefixos ocasionalmente provoca certas alterações nas vogais da palavra, daí a mudança de sub placo → supplico e ob sacro → obsecro. No período clássico, as construções originais, com a partícula separada, ja não deviam mais fazer muito sentido para os falantes de latim, razão pela qual o camarada Festus deve ter sentido a necessidade de dar essa explicação.)

Esse fenômeno é absurdamente produtivo em latim. Por exemplo:

Para encerrar, aqui vai uma lista de algumas palavras originárias de construções partícula+verbo usadas neste post:

E isso só no primeiro parágrafo (9 palavras em 81 (descartando as palavras em inglês, e contando repetições), i.e., 1/9 das palavras do parágrafo são derivadas construções partícula+verbo). Há um bocado de outras palavras do mesmo tipo, tais como "ad-vérbio", "convencional" (de "con-vir"), "in-corporar", "pre-servar", "pro-vocar", e diversas outras. E isso só contando (< "com-putando") palavras do latim ("aná-logo" é uma construção análoga em grego). De repente o inglês começa a parecer brincadeirinha de criança.

Comentários / Comments (8)

Marcus Aurelius, 2013-09-18 17:07:31 -0300 #

Meme apropriado para a situação:

http://knowyourmeme.com/memes/sudden-clarity-clarence

Embora eu conhecesse alguns exemplos, não sabia que eram tantos!

Mas é uma pena que a maioria das palavras não faça tanto sentido quando decompostas... Me lembra uma aula de português que tive falando sobre prefixos, com uma lista enorme, só que poucos eram produtivos (eu não saberia criar uma palavra com o prefixo ab-, nem para-)


John Gamboa, 2013-09-21 00:59:56 -0300 #

LOL...

Isso me lembra meu outro comentário lá sobre "ferir" e suas infinitas variações (inferir, referir, interferir, ...). Em português, tenho sempre a impressão de que os verbos da terceira conjugação (e às vezes os relacionados) vêm em conjuntinhos:

[con, pres] sentir
[ex, im, com, re, su] primir
[com, re, im] petir/pedir
[sub, re, e, per, pro, ad, intro] meter/mitir
...

Mas olha que a gente tá voltando atrás e cada vez mais permitindo às preposições ficar em qualquer lugar (ontem mesmo eu li uma reportagem que dizia "A música é uma balada pop que todo mundo pode se relacionar a ela [...]")... e daí acho que é só um passo pra começar a produzir verbos frasais (até que tem uns "descascar abacaxi", "resolver pepinos", "engolir sapo", "bater boca", "dar bola" ou "ser bola fora"; mas o único que eu consigo pensar que segue a regra "verbo+preposição" é "jogar fora", que, convenhamos, é até que bem "idiossincraticozinho").


John Gamboa, 2013-09-21 01:13:10 -0300 #

EEE, anyway, essa semana eu descobri o verbo "legere" -- ler em voz alta --, cujo particípio é "lectum", daonde vem

"letivo -> lecionar"

, e que aceita vários prefixos, como

"neg" (neglegere -> negligir -> negligente -> negligenciar)
"se" (seligere -> selectum -> seleto -> selecionar)
"e[x]" (eligere -> eleger)

e, o mais legal de todos,

"inte[r]" (intellegere -> intelligens -> intelligentem -> inteligente).

Foi tri que tava todo mundo quieto lá no trabalho e eu pedi pra contar algo que eu tinha descoberto que achara muito legal xP Eu comecei a falar, e uns caras da sala vizinha surgiram perguntando onde eu tinha escondido o baseado... HUEAHEUHAUHE... lol... dafuq =)


Vítor De Araújo, 2013-09-21 01:30:22 -0300 #

@John: Só pra constar, o verbo "ferir" não tem nada que ver com esse "-ferir", que vem do verbo "ferō, ferre" (carregar, entre outras coisas; cognato de 'bear' [1]).

Pois é, "jogar fora" é meio curioso. Ainda mais curioso porque é exatamente análogo ao "throw away" do inglês...

Quanto à citação ali, aquilo tá mais pra pronome resumptivo do que pra preposição-onde-eu-quiser. Procura por "resumptive pronoun" em [2] se tiver curiosidade.

[1] https://en.wiktionary.org/wiki/fero#Latin
[2] http://www.rickmor.x10.mx/syntax.html

Aliás, eu vou é copiar o trecho aqui discaradamente, mas olhar o original pode dar mais contexto:

[quote]
Gaps in relative clauses appear to be required by slightly less than half of the world's languages. A slight majority, however, either do not allow gaps or severely restrict them. For example, Palestinian and Egyptian Arabic allow gaps only if the noun being modified is the effective subject of the relative clause, as in example 2 above. For all other verb arguments, a gap is not allowed and must be filled by what is called a _resumptive pronoun_. Here is what Arabic versions of sentences 1, 3 and 4 would look like using English words and English word order:

1. The shirt that you want it is on the table.
3. This is the hammer that he broke the window with it.
4. They examined the room that the fire started in it.

Note that in all three sentences, the resumptive pronoun "it" is required for the Arabic sentences to be grammatical.

[Incidentally, the above applies to Egyptian and Palestinian Arabic. In Standard Arabic, the use of resumptive pronouns is optional. However, in Standard Arabic, the relative pronouns are inflected for gender and number. In effect, the resumptive pronoun is built into the relative pronoun.]

In other languages, such as Irish, the use of resumptive pronouns is optional. Here, though, the relative pronoun that introduces the clause (such as "who", "which", "that", "in which", "with which", etc.) differs depending on whether the clause contains a gap or a resumptive pronoun. For example, languages like this will have two words or phrases for "in which": one for use when the clause contains a gap, and the other for use when the clause contains a resumptive pronoun. Unfortunately, I have no information on how widespread this phenomenon is.

Finally, a very small minority of languages, such as Persian, not only allow the use of resumptive pronouns, but also allow gaps to be filled by modified or coordinated nouns. Thus, the following sentence would be perfectly grammatical in Persian:

The police caught the man who he and his wife robbed the bank.

However, this usage seems to be very rare.
[/quote]


Vítor De Araújo, 2013-09-21 01:39:30 -0300 #

Hmm, outra referência:

http://www.glottopedia.org/index.php/Resumptive_pronoun


Vítor De Araújo, 2013-09-21 01:50:54 -0300 #

Oops, comentei ao mesmo tempo que tu, hehehe. :P


Vítor De Araújo, 2013-09-21 01:55:52 -0300 #

Detalhe curioso: o significado original de "legere" é "juntar, coletar" (o que explica pelo menos o "selecionar").

http://www.etymonline.com/index.php?term=lecture&allowed_in_frame=0

lecture (n.)
late 14c., "action of reading, that which is read," from Medieval Latin lectura "a reading, lecture," from Latin lectus, past participle of legere "to read," originally "to gather, collect, pick out, choose" (cf. election), from PIE *leg- "to pick together, gather, collect" (cf. Greek legein "to say, tell, speak, declare," originally, in Homer, "to pick out, select, collect, enumerate;" lexis "speech, diction;" logos "word, speech, thought, account;" Latin lignum "wood, firewood," literally "that which is gathered").

To read is to "pick out words." Meaning "action of reading (a lesson) aloud" is from 1520s. That of "a discourse on a given subject before an audience for purposes of instruction" is from 1530s.


John Gamboa, 2013-09-21 14:56:08 -0300 #

AA... então o "ferir" não é cognato dos outros verbos com -ferir, pelo que entendi (achei o verbo "fero" e o "ferro" lá no wiktionary). Tri isso... xP Mais um desses casos em que o mapeamento de uma língua pra outra não é isomórfico =)

Sobre o pronome resuntivo (tirei o "p" porque ele me parece "arcaico" no português moderno -- e, aí, adaptei o "m" pra um "n", pra seguir "as regras"), eu não sabia da sua existência, e definitivamente me pareceu que é bem o caso mesmo.

Mesmo assim, a questão era mais sobre o movimento da preposição pra o fim da frase, e não sobre o uso do pronome resuntivo (até porque, dependendo da pessoa, o pronome resuntivo nem aparece -- tu é um, por exemplo, que diria coisas como "essa é um pessoa que eu não falaria _com_").

...

Que tensa a evolução do "legere". Se eu entendi bem, então, ele confundiu o significado de "pegar, selecionar" (do PIE) com o que viria do grego e não teria nada a ver (lex, lexis --> onde "x" e "ct" estão mega relacionados). [Anyways, eu achei esse textinho ali da etimologia bem confuso <o>]

Tri que a palavra só ganhou o significado de "aula" tri tarde. Pena que não usam mais latim pra textos científicos. Seria bem louco xP


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