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Mudança fonética

2012-11-20 01:55 -0200. Tags: lang, em-portugues

Línguas mudam com o tempo. Provavelmente o tipo de mudança que ocorre mais rapidamente em qualquer língua são mudanças de pronúncia. (Muitas vezes essas mudanças de pronúncia acabam levando a mudanças gramaticais. Por exemplo, a perda de -s finais em uma língua como o português pode levar à eliminação da distinção entre singular e plural em substantivos. But I digress.)

Um aspecto interessante das mudanças fonológicas é que elas constumam ser sistemáticas: certos sons (ou seqüências de sons) são transformados em outros sons sempre que ocorrem em um determinado contexto. Assim, é possível descrever as mudanças na forma de regras que mapeiam os sons antigos para os sons novos. Uma mesma língua pode passar por mudanças distintas em diferentes regiões, produzindo línguas "filhas" que demonstram correspondências regulares entre os sons de suas palavras. Isso é facilmente visível, por exemplo, no caso do português e do espanhol: as vogais e e o curtas tônicas do latim se mantiveram como e e o em português, mas mudaram para ie and ue em espanhol, produzindo pares como fogo/fuego, terra/tierra, etc. Por outro lado, e e o longos mantiveram-se como e e o em ambas as línguas. A distinção entre vogais curtas e longas do latim original posteriormente se perdeu nas línguas latinas; conseqüentemente, há uma "perda de informação" no mapeamento das vogais originais para as do português moderno: ambos os os, curto e longo, se tornaram o mesmo som o; não é, em geral, possível determinar se um o do português vem de um o original curto ou longo, e conseqüentemente não é sempre possível saber se um o do português corresponde a um o ou ue do espanhol, portunhol não obstante. [Em geral, note bem. Eis uma exceção: os que sofrem metafonia em português (mudança de pronúncia de ô para ó, e.g., fogofogos) correspondem a um o curto em latim, e conseqüentemente a um ue em espanhol.]

Pode-se dizer* que existem três motivações principais por trás de mudanças fonológicas:

Uma das mudanças fonológicas mais interessantes (para mim) é a chamada lei de Grimm. Observe os seguintes pares de palavras em inglês e português/latim/grego: fire e pira, fish e peixe, foot e podo-, father e pater. Notou a similaridade? Um f do inglês (uma língua germânica) freqüentemente corresponde a um p em uma língua indo-européia não-germânica. A lei de Grimm descreve uma série de correspondências mais gerais entre os sons originais do proto-indo-europeu (língua que deu origem a todas as línguas indo-européias) e os do proto-germânico (língua que deu origem às línguas germânicas, tais como o inglês, o alemão e o islandês). Na verdade, "a lei" é constituída por uma seqüência de mudanças que ocorreram uma após a outra, produzindo uma mudança em cadeia. O interessante é que é possível justificar cada passo pelas motivações apresentadas acima**:

  1. As consoantes oclusivas surdas do PIE (p, t, k) tornam-se fricativas surdas (ɸ (f), θ (th), x (h)).

    Provavelmente essa mudança se deu em dois estágios. Primeiramente, p, t, k originais passaram a ser aspirados (pʰ, tʰ, kʰ), por alguma razão (talvez por analogia com as consoantes sonoras aspiradas (bʰ, dʰ, gʰ), ou para melhor diferenciá-las das consoantes sonoras simples (b, d, g), ou porque os proto-proto-germânicos se misturaram com os falantes de alguma língua não-indo-européia em que p, t, k eram aspirados, ou porque essas consoantes sempre foram opcionalmente aspiradas em PIE, ou por intervenção da maçonaria/Illuminati/atlantes/aliens/zumbis; note que essas razões não são mutuamente exclusivas).

    Posteriormente, p, t, k assimilaram o modo de articulação do ʰ, produzindo os sons relacionados ɸ (f), θ (th), x (h).

    Exemplos: pater e father, kardio- e heart.

  2. As consoantes oclusivas sonoras do PIE (b, d, g) tornam-se surdas (p, t, k).

    A mudança anterior deixou a língua sem oclusivas surdas. Ter apenas oclusivas sonoras (b, d, g) e não ter oclusivas surdas (p, t, k) é pra lá de estranho entre as línguas do mundo, e portanto há uma tendência a "equilibrar" a língua dessonorizando as oclusivas sonoras. (Algumas coisas são mais ou menos comuns que outras entre as línguas do mundo, por motivos nem sempre bem entendidos.) Além disso, o contraste entre b, d, g e bʰ, dʰ, gʰ é fraco o suficiente para motivar uma mudança que favoreça um aumento nesse contraste.

    Exemplos***: decem/dez e ten, gelidus e cold [edit].

  3. As consoantes oclusivas sonoras aspiradas do PIE (bʰ, dʰ, gʰ) tornam-se não-aspiradas (b, d, g).

    Com o desaparecimento do b, d, g originais, a aspiração não contrasta com nada (i.e., b e não são mais fonemas distintos), e portanto não se ganha nada em continuar pronunciando-a. (Fora que bʰ, dʰ, gʰ também não são sons muito comuns.)

    Exemplos: PIE *bʰréh₂tērfrater e brother ( em latim vira f em início de palavra; note a semelhança com a mudança de para f em proto-germânico (na verdade quase todas as oclusivas sonoras aspiradas viram f em latim, but I digress)).

Imagine uma conclusão decente para este post aqui.

* E aqui leia-se "eu estou dizendo"; não me dei ao trabalho de verificar se o que eu estou dizendo é uma teoria universalmente aceita ou não. Uma pesquisa rápida revelou essas notas de aula que também não citam fonte nenhuma e eu me dei por satisfeito.

** Note, entretanto, que os sons exatos do proto-indo-europeu e do proto-germânico não são conhecidos, já que não havia nem escrita (fora meia dúzia de runestones, no caso do proto-germânico), nem foneticistas, nem gravadores de MP3 na época em que essas línguas eram faladas. O que se sabe sobre essas línguas, sabe-se por meio do método comparativo, pelo qual se comparam línguas conhecidas de uma certa família e tenta-se deduzir a forma da língua original. Embora tenha se conseguido obter resultados respeitáveis através desse método, uma reconstituição exata das línguas nem sempre é possível.

*** O fonema b é curiosamente raro em PIE, e por isso é difícil achar um exemplo bom de b→p. Há explicações igualmente curiosas para essa raridade. (Outra que já ouvi, em algum episódio do Conlangery, é que o b do "proto-proto-indo-europeu" se tornou w, o que explicaria também o fato de que w é relativamente comum em PIE.)

Comentários / Comments (4)

El Maharaja, 2012-11-21 16:38:29 -0200 #

"Regularização/simetria dos fonemas da língua: Regularidade facilita tanto a vida do falante quanto a do ouvinte. Exceções tendem a ser removidas: distinções incomuns tendem a ser eliminadas, e distinções comuns tendem a ser generalizadas para casos em que não costumavam ocorrer."
Por isso os franceses tiveram tanto tempo de revolução. Ninguém conseguia entender nada do que os outros estavam falando.

"O interessante é possível justificar cada passo pelas motivações apresentadas acima**:" O interessante faltou alguma coisa aqui.


El Magnífico, 2012-11-21 17:07:19 -0200 #

oBRIGADO.


John Gamboa, 2012-11-28 04:13:20 -0200 #

Bááá... muito bom isso. Nunca tinha me dado conta (nesse nível). Tipo... eu sempre percebi as semelhanças entre o inglês e o alemão (tipo Father/Vater, Mother/Mutter, ...), nas nunca teria chegado ao português (como em gato/cat).

Anyway... tava lendo aquele aquele "ciberduvidas.pt", linkado ali, e, báá, tem umas coisas tensas no português PT.

Eles pronunciam "carbono" e "cromo" com o "o" aberto O_O Tipo... eu aceito coisas como "polémico" e "fenómeno", mas... báá... aqui [1] eles sugerem que se pronuncie "cadáveres" com o "e" (em "ve") aberto O_o

Essas coisas que esses portugueses falam <o>

[1]: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=19412


Vítor De Araújo, 2012-11-28 11:54:49 -0200 #

Oops, acabei de me ligar que gato vs. cat não é via lei de Grimm, porque em latim é "cattus". Turns out[1] que o 'cat' do inglês é importado do latim... :-/ Vou ter que mudar esse exemplo :P

[1] http://en.wiktionary.org/wiki/cat#Etymology_1


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