Elmord's Magic Valley

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Trivia etymologica #3: -ães, -ãos, -ões

2017-08-17 13:29 -0300. Tags: lang, etymology

Em português, palavras terminadas em -ão têm três possíveis terminações de plural diferentes: -ães (cão → cães), -ãos (mão → mãos) e -ões (leão → leões).

Como é que pode isso?

Esse é mais um caso em que olhar para o espanhol pode nos dar uma idéia melhor do que está acontecendo. Vamos pegar algumas palavras representativas de cada grupo e ver como se comportam os equivalentes em espanhol:

Singular Plural
Português Espanhol Português Espanhol
-ães cão can cães canes
capitão capitán capitães capitanes
alemão alemán alemães alemanes
-ãos mão mano mãos manos
irmão hermano irmãos hermanos
cidadão ciudadano cidadãos ciudadanos
-ões leão león leões leones
nação nación nações naciones
leão león leões leones

O que nós observamos é que em espanhol, cada grupo de palavras tem uma terminação diferente tanto no singular (-án, -ano, -ón) quanto no plural (-anes, -anos, -ones), enquanto em português, todas têm a mesma terminação no singular (-ão), mas terminações distintas no plural (-ães, -ãos, -ões). A relação entre as terminações no plural em espanhol* e português é bem direta: o português perdeu o n entre vogais (como já vimos acontecer no episódio anterior), mas antes de sair de cena o n nasalizou a vogal anterior, i.e, anes → ães, anos → ãos, ones → ões.

Já no singular, as três terminações se fundiram em português. O que provavelmente aconteceu (e eu preciso arranjar mais material sobre a história fonológica do português) é que o mesmo processo de perda do n + nasalização ocorreu com as terminações do singular (i.e., algo como can → cã, mano → mão, leon → leõ), e com o tempo essas terminações se "normalizaram" na terminação mais comum -ão. Como conseqüência, o singular perdeu a distinção entre as três terminações, enquanto o plural segue com três terminações distintas.

_____

* Tecnicamente eu não deveria estar partindo das formas do espanhol para chegar nas do português, mas sim partir da língua mãe de ambas, i.e., o dialeto de latim vulgar falado na Península Ibérica. Porém, nesse caso em particular o espanhol preserva essencialmente as mesmas terminações da língua mãe, então não há problema em derivar diretamente as formas do português a partir das do espanhol.

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Trivia etymologica #2: cheio, full

2017-03-13 00:17 -0300. Tags: lang, etymology

Seguindo o tema de fartura do último episódio, começaremos nosso passeio etimológico de hoje com a palavra cheio. Cheio vem do latim plenus. É uma mudança fonética e tanto, então vamos por partes.

O meio

Cheio em espanhol é lleno. Olhar para o espanhol freqüentemente ajuda a entender a etimologia de uma palavra em português, porque o espanhol conserva alguns sons que se perderam em português, e vice-versa. Neste caso, o espanhol conservou o n de plenus que o português perdeu. O português tem uma séria mania de perder os sons l e n entre vogais do latim. Exemplos:

Quando as vogais antes e depois do l ou n deletado são iguais, o português junta as duas numa só:

E entre certos encontros de vogais (aparentemente entre ea e entre eo), o português prefere inserir um i (produzindo eia, eio):

Por outro lado, quando o l ou n era geminado em latim, isto é, ll e nn, ele é mantido como l e n em português. Já em espanhol, o som resultante do ll do latim continua sendo escrito como ll, mas é pronunciado como o lh do português (com variações dependendo do dialeto), e o nn do latim se torna o ñ do espanhol (pronunciado aproximadamente como o nh do português). Exemplos:

O início

A outra diferença entre cheio e lleno é o som inicial. Nesse caso, nem o português nem o espanhol conservaram o som original do latim, mas pl e cl quase sempre viram ch em português e ll em espanhol. Outros exemplos:

Provavelmente havia alguma peculiaridade na pronúncia desses encontros em latim (ou pelo menos em alguns dialetos de latim), porque eles sofrem modificações em diversas outras línguas românicas também; em particular, em italiano as palavras acima são chiave (o ch tem som de k), chiamare, pioggia e piorare. No geral, o que se observa é uma palatalização desses encontros consonantais: a pronúncia deles tendeu a evoluir para um ponto de articulação mais próximo do palato (céu da boca). Meu palpite é que o l nesses encontros tinha um som mais próximo do nosso lh nesses dialetos (i.e., /klʲavis, plʲuvia/ (algo como clhávis, plhúvia)).

Surpreendentemente, o francês, que costuma ser uma festa de mudanças fonéticas, mantém ambos os encontros intactos (clef, clamer, pluie, pleurer).

Mudanças regulares

Ok. Como vimos, plenus do latim se torna cheio em português. O que vimos são duas mudanças fonéticas regulares na história do português: uma mudança de pl inicial para ch, e uma perda de n entre vogais. No geral, as mudanças de pronúncia que ocorrem ao longo da história de uma língua têm essa natureza regular: elas afetam certos sons em todas as palavras da língua, sempre que eles ocorrem em determinadas circunstâncias. Claro que como com toda regra, ocasionalmente há exceções, por diversos motivos, mas no geral se espera essa regularidade quando se está formulando uma regra que explique a relação entre duas línguas aparentadas (no caso, latim e português).

Mas espera um pouco, você me diz: o português também possui a palavra pleno (e plenitude), que apresenta tanto o pl inicial quanto o n intervocálico original de plenus. Como é que pode isso?

A resposta nesse caso é que pleno é uma palavra reimportada do latim, depois que esses sound shifts já tinham acontecido. O português (e demais línguas românicas, bem como o inglês) contêm inúmeras palavras desse tipo, tipicamente reintroduzidas a partir da época do Renascimento, quando a cultura clássica grega e romana entrou em alta novamente. O resultado é que freqüentemente o português tem duas versões de uma mesma palavra latina: uma herdada naturalmente do latim, passando pelas mudanças de pronúncia históricas da língua, e uma reimportada diretamente do latim, sem a passagem por essas mudanças. Tipicamente, essas palavras reintroduzidas têm um tom mais formal, enquanto as versões "nativas" têm um tom mais coloquial. Exemplos são cheio e pleno, (lugar) vago e vácuo, chave e clave, paço e palácio. Outras vezes o português tem uma palavra nativa, herdada do latim e passando pelas mudanças fonéticas esperados, e diversas palavras relacionadas importadas posteriormente do latim sem essas mudanças. Exemplos são vida (do latim vita) e vital; chuva (do latim pluvia) e pluvial; mês (do latim mensis) e mensal.

Ok, plenus

Vamos voltar para o latim. Plenus em latim significa – adivinhem só – cheio. Em latim também há um verbo relacionado, pleo, plere, que significa encher. O particípio desse verbo é pletus, que, combinado com a típica variedade de prefixos, nos dá palavras como repleto, completo (e, em inglês, deplete). De in- + plere obtemos implere, que é a origem de encher. De sub- + pleo obtemos supplere, de onde vem suprir (e supply, e suplemento). De com/con- + pleo obtemos complere, de onde vem cumprir (além de completo, e complemento).

Em última instância, pleo vem da raiz indo-européia *pleh₁. Outras palavras dessa mesma raiz são plus (e duplus, triplus, etc.) e polys em grego (de onde vem o nosso prefixo poli-).

Há muitas mil eras eu falei por aqui sobre a Lei de Grimm, que descreve a evolução de alguns sons do proto-indo-europeu nas línguas germânicas. Como visto lá, o p do proto-indo-europeu corresponde ao f nas línguas germânicas. E sure enough, full e fill vêm da mesma raiz *pelh₁ que nos dá pleno e cheio. Viel do alemão também vem da mesma raiz. (Esse v se pronuncia /f/. Curiosamente, o alemão vozeou o /f/ para /v/ antes de vogais na Idade Média e shiftou ele de volta para /f/ alguns séculos depois.)

E a essa altura, já estamos todos cheios do assunto.

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Trivia etymologica #1: much vs. mucho

2017-03-05 01:43 -0300. Tags: lang, etymology

Há muitos mil anos, explicando para alguém a diferença entre muy e mucho em espanhol, eu fiz uma analogia com o inglês: muy é como very em inglês, e modifica adjetivos e advérbios, e.g., muy rápido = very fast. Já mucho é como many em inglês, e modifica substantivos: muchas cosas = many things. Na verdade essa explicação é parcialmente correta: muchos no plural é como many, e é usado para substantivos contáveis (como em muchas cosas). Mas mucho no singular é como much, e é usado para substantivos não-contáveis, e.g., mucho dinero = much money.

Na época eu me perguntei: será que much e mucho são cognatas? Apesar da similaridade de som e significado, seria pouco provável que as duas palavras fossem cognatas (a menos que o inglês tivesse importado a palavra do espanhol, o que também seria pouco provável). Isso porque se houvesse uma raiz indo-européia comum para as duas palavras, ela teria passado por mudanças fonéticas diferentes no caminho até o inglês e até o espanhol, e seria pouco provável que o resultado final se parecesse tanto em ambos os branches.

As it turns out, as palavras realmente não são cognatas. much vem do inglês médio muche, muchel, do inglês antigo myċel, miċel. O ċ (som de "tch", ou /tʃ/ em IPA) do Old English é resultado de um shift de /k/ para /tʃ/ diante de /e/ e /i/. Assim, a palavra original era algo como /mikel/, que, em última instância, vem da raiz indo-européia *méǵh₂-, que significa 'grande'. É a mesma raiz de mega em grego, e de magnus em latim. *méǵh₂- com o sufixo *-is, *-yos resulta em latim nas palavras magis, que é a origem da palavra mais em português, e maior, que é a origem de (quem imaginaria?) maior em português. Resumindo, much, mega, mais e maior são todas cognatas.

Mucho, por outro lado, assim como o muito do português, vem do latim multus, que é também a origem do prefixo multi e de palavras como múltiplo. Segundo nosso amigo Wiktionary, multus vem da raiz indo-européia *mel-, e é cognata de melior (de onde vem melhor), que nada mais é do que *mel- com o mesmo sufixo *-yos que transforma mag(nus) em magis e maior.

Por fim, muy é uma contração do espanhol antigo muito, cuja derivação é trivial e sugerida como exercício para o leitor.

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