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Alfabeto Frenético Interglacial

2013-03-20 14:38 -0300. Tags: lang, em-portugues

Freqüentemente eu vejo gente preferindo manter uma distância saudável do Alfabeto Fonético Internacional (IPA, International Phonetic Alphabet), por parecer "estranho" ou "difícil". Em verdade, o IPA é bastante prático, e neste post pretendo explicar o básico sobre ele.

Comecemos pelo começo

O objetivo do IPA é ser capaz de transcrever os sons de todas as línguas humanas. Para isso, o IPA contém uma centena de letras, e uma dúzia de diacríticos (acentos e outras marcas) que são usados quando necessário para detalhar a pronúncia de um som. Na prática, foneticistas à parte, nenhum mortal precisa aprender todos os símbolos do IPA. Em geral, nós aprendemos os símbolos necessários para transcrever os sons das línguas em que estamos interessados, e se por acaso nos deparamos com um símbolo que não conhecemos, consultamos o famoso diagrama do IPA (ou a Wikipédia, que tem basicamente um artigo para cada letra do IPA, freqüentemente com áudio; o artigo sobre o IPA contém uma versão com links do diagrama). O diagrama do IPA é uma espécie de tabela periódica de sons: a posição de uma letra indica como ela é pronunciada. Veremos isso melhor mais adiante.

Fones e fonemas

Até agora falamos de representar os "sons" da fala, mas "som" é um conceito um tanto quanto vago. Na verdade, o IPA transcreve fones e fonemas. Vamos por partes.

Um fone é a menor "unidade de fala" que pode ser pronunciada independentemente. Por exemplo, em uma palavra como há dois fones, representados na escrita pelos caracteres p e á. (Note que os fones não têm relação direta com as letras do alfabeto; em uma palavra como chá também há dois fones, escritos ch e á.)

Um fonema, por sua vez, é um símbolo abstrato que representa a menor unidade de fala capaz de distinguir significado. Vamos com calma.

Uma das grandes sacadas da lingüística moderna é que línguas funcionam à base de contraste: os símbolos lingüísticos (e isso vale tanto para sons quanto para conceitos, formas gramaticais, etc.) são definidos tanto pelo que eles são, quanto pelos outros símbolos lingüísticos que eles não são e dos quais se distinguem. Um exemplo grosseiro: a palavra banco descreve (entre outras coisas) um móvel usado para se sentar. Mas nem todo móvel de se sentar é um banco; em particular, uma das coisas que não é um banco é uma cadeira, i.e., parte do que define um banco é o fato de ele não ser uma cadeira. Se não houvesse uma palavra separada para "cadeira", é provável que a palavra banco pudesse ser usada tanto para bancos quanto para cadeiras. Outras línguas podem fazer divisões diferentes no espaço conceitual. (Por exemplo, o que nós chamamos de banco em português corresponde a bench e stool em inglês. Ou o que se chama de nezumi em japonês corresponde a rato e camundongo em português. Ou o que chamamos de ser e estar corresponde a be em inglês. Ou...)

Da mesma forma, um fonema é definido em parte pelo contraste que faz com os outros fonemas da língua. Por exemplo, existem pelo menos quatro maneiras de se pronunciar o som inicial da palavra rato: como o h do inglês, como um som similar ao j do espanhol, como uma vibrante uvular, ou como uma vibrante alveolar (com sotaque do interior gaúcho). (Ouça-os.) Cada um desses sons corresponde a um fone. Porém, como em português esses sons não são capazes de distinguir significado (não há nenhuma palavra em português em que a escolha de um desses erres faça diferença), todos esses fones correspondem a um único fonema da língua. Em outras palavras, o fone é a realização física, enquanto o fonema é a idéia abstrata. (Note que o que constitui cada fonema depende da língua, enquanto os fones são um fenômeno puramente físico independente de uma língua específica.)

Tudo isso foi para dizer que quando se usa o IPA, normalmente se escrevem transcrições fonéticas (de fones) entre colchetes, e transcrições fonêmicas (de fonemas) entre barras. Como a idéia do IPA é ter, em linhas gerais, uma letra para cada fone (afinal ele é o alfabeto fonético internacional), o que normalmente se faz quando se quer transcrever fonemas é escolher o símbolo de um dos fones para representar o fonema, independentemente da sua realização física. (Freqüentemente se escolhe o símbolo mais conveniente de digitar, ou o fone mais comum.) Assim, poderíamos transcrever as quatro pronúncias de "rato" foneticamente como ['hatu], ['χatu], ['ʀatu], ['ratu], todas elas correspondentes a uma transcrição fonêmica /'ratu/. (Poderíamos ter escolhido qualquer um dos outros símbolos no lugar do r. O símbolo ' indica que a próxima sílaba é tônica.)

Uma transcrição fonética pode ser mais ou menos precisa, dependendo da necessidade do autor. Por exemplo, em uma palavra como vinho, é comum que o i seja nasalizado em contato com o nh (experimente tapar o nariz e pronunciar vinho). Uma transcrição fonética mais precisa ("narrow transcription") da palavra, portanto, seria ['vĩɲu]. Porém, muitas vezes não estamos interessados em uma descrição tão detalhada, e nesse caso podemos usar uma transcrição menos precisa ("broad transcription"): ['viɲu]. De maneira similar, o "r enrolado" do inglês americano, [ɹ], é freqüentemente transcrito por [r] quando essa distinção não é relevante. (Embora os termos "broad transcription" e "narrow transcription" possam passar uma idéia de "oito-ou-oitenta", na verdade há um continuum de transcrições mais ou menos precisas.)

Por fim, ocasionalmente utilizam-se os símbolos < e > para demarcar transcrições na ortografia da língua (ou seja, para indicar que algo não está em IPA): <rato>.

Consoantes e vogais

Os fones se dividem em vogais e consoantes (embora existam border cases para causar a necessária controvérsia em todo e qualquer tópico de lingüística). Basicamente, vogais são os fones que são pronunciados sem impedimento da corrente de ar (e.g., [a]), enquanto consoantes são aqueles em que o ar sofre algum impedimento (e.g., [p], em que os lábios temporariamente impedem a passagem do ar). As descrições da maneira de se pronunciar vogais e consoantes são diferentes; assim, abordaremo-las separadamente.

Consoantes

As consoantes no diagrama do IPA estão dispostas em uma tabela. A coluna em que a consoante se encontra indica o seu ponto de articulação (place of articulation), i.e., onde na boca ocorre o impedimento do ar, enquanto a linha indica o modo de articulação (manner of articulation), i.e., de que maneira exatamente o ar é impedido. Por exemplo, a consonante [p] está na coluna das bilabiais (o impedimento do ar se dá através dos lábios) e na linha das plosivas (a passagem do ar é totalmente interrompida e depois liberada em uma "explosão").

Em alguns pontos da tabela há um par de letras no mesmo quadrado (por exemplo, p b). Nesses casos, a letra da direita representa uma consoante sonora ou vozeada (voiced), i.e., há vibração das cordas vocais durante a pronúncia da consoante, enquanto a da esquerda representa uma consoante surda ou desvozeada (voiceless), i.e., não há vibração. Para entender a diferença, experimente pronunciar alternadamente sssss, zzzzz ou fffff, vvvvv. (Nos pontos em que só há uma consoante, normalmente ela é sonora; caso seja necessário transcrever a consoante surda equivalente, utiliza-se um diacrítico. Por exemplo, um [m] surdo se transcreve [m̥].)

Segue uma tabela das consoantes do português do Brasil, com descrições dos pontos e modos de articulação.

Bilabial
ambos os lábios
Lábio-dental
lábio inferior e dentes superiores
Alveolar
língua e alvéolo (a "protuberância" atrás da gengiva superior)
Pós-alveolar
ponta da língua toca a região logo atrás do alvéolo, antes do céu da boca
Palatal
meio da língua e céu da boca
Velar
parte de trás da língua e palato mole
Uvular
parte bem de trás da língua e úvula ("campainha")
Glotal
glote (passagem entre as cordas vocais)
Plosiva
interrupção total do ar seguida de "explosão"
Sonora [b]
bato
[d]
dado
[g]
gado
Surda [p]
pato
[t]
tato
[k]
cato
Nasal
interrupção total do ar pela boca; passagem do ar pelo nariz livre
Sonora [m]
mato
[n]
nato
[ɲ]
nhoque
Fricativa
interrupção parcial do ar, produzindo "turbulência"
Sonora [v]
vaca
[z]
zelo
[ʒ]
jato
[h]
rato1
Surda [f]
faca
[s]
selo
[ʃ]
chato
[χ]
rato1
Africada
fricativa + plosiva
Sonora [dʒ]
dia2
Surda [tʃ]
tia2,
tchau
Aproximante
interrupção parcial, insuficiente para criar turbulência
Sonora [ɹ]
parte3
Aproximante
lateral

(lateral = o ar passa pelos lados da língua)
Sonora [l]
lado
[ʎ]
lhama
Vibrante
simples (flap/tap)

ar é interrompido brevemente uma única vez, sem pressão
Sonora [ɾ]
para,
parte3
Vibrante
múltipla (trill)

ar causa vibração do órgão articulador, provocando múltiplas interrupções da corrente de ar
Sonora [r]
parte3,
rato1
[ʀ]
rato1

1 A pronúncia do r inicial (e do rr) varia bastante entre regiões do país e entre indivíduos, e provavelmente há outras pronúncias não contabilizadas nessa tabela.

2 As pronúncias ['dʒia] e [tʃia] são menos comuns no nordeste do país.

3 A pronúncia do r em final de sílaba também varia bastante. Pronúncias comuns incluem [ɾ] (vibrante simples), [r] (vibrante múltipla, imagino que mais comum no Rio Grande do Sul do que no resto do país), [x] (no sotaque carioca) e [ɹ] (o "r enrolado").

Esse diagrama só contém as consoantes usadas no português do Brasil. Como diversão, você pode experimentar pronunciar os sons correspondentes às regiões em branco por analogia. (Se você olhar o diagrama do IPA, verá que algumas regiões estão pintadas de cinza, o que indica que acredita-se que não seja possível pronunciar uma consoante com o ponto e modo de articulação indicados pela região, mas você pode considerar isso como um desafio.)

Vogais

No diagrama de vogais do IPA, as vogais estão dispostas segundo três características: abertura (openness) ou altura (height), i.e., quanto espaço há entre a língua e o céu da boca; "profundidade" (backness), i.e., a posição da língua na boca com relação ao eixo frente-trás; e arredondamento (rounding), i.e., se a vogal é pronunciada com os lábios arredondados ou não.

Se você pronunciar a, é, ê, i em seqüência, perceberá que o espaço entre a língua e o céu da boca vai ficando gradativamente menor: essa é a variação de altura que o diagrama descreve. Essas quatro vogais são transcritas [a] (aberta), [ɛ] (média-aberta), [e] (média-fechada), [i] (fechada).

Se você agora pronunciar a, ó, ô, u em seqüência, perceberá a mesma variação de abertura, mas também perceberá que a língua permanece mais próxima da parte de trás da boca do que com é, ê, i. Essa variação é a "profundidade" (backness) da vogal: [ɛ], [e], [i] são anteriores (front) ou semi-anteriores (near front), enquanto [ɔ], [o], [u] são posteriores (back).

Se você pronunciar é, ó, ê, ô, i, u em seqüência, perceberá que além da diferença de backness, a posição dos lábios alterna entre "simples" e arredondada. Essa variação é o arredondamento da vogal.

Uma outra propriedade das vogais relevante para o português é a nasalização, i.e., se a passagem do ar pelo nariz é livre ou não. Nasalização à parte, há oito vogais no português brasileiro:

A nasalização é indicada pelo til: <mãe> ['mɐ̃i̯].

Semivogais

As vogais fechadas (e.g., [i], [u] em português) restringem tanto a passagem do ar que em certas condições esses fones podem se comportar como consoantes aproximantes, ocorrendo fora do núcleo silábico (e.g., mau, pai, Paraguai). Nesses casos, elas são denominadas semivogais. Semivogais podem ser indicadas ou com um diacrítico (['mau̯], ['pai̯]) ou com símbolos específicos para as semivogais (['maw], ['paj]), dependendo de se a análise (a.k.a. humor) do lingüista trata esses sons como vogais ou como consoantes. Em uma transcrição "broad", se não houver confusão, pode-se simplesmente omitir o diacrítico e usar o símbolo da vogal comum (isso é particularmente comum em transcrições do inglês: <say> ['seɪ]).

[puɾ 'oʒi̯ɛ 'sɔ]

E ficamos por aqui. Espero que este post tenha servido para explicar os conceitos básicos por trás do IPA. Para mais informações, consulte o artigo da Wikipédia (ou deixe um comentário e eu me arrisco a responder).

Comentários / Comments (5)

John Gamboa, 2013-03-20 20:59:10 -0300 #

Bááá... me serviu muito isso aí. Eu sempre olhava aquele quadrinho das vogais e, sem saco pra ler o artigo enorme da wikipedia, não entendia nada do que dizia. Agora ao menos entendi os três parâmetros ali.

Só ainda acho bem complicado notar a diferença entre o "r" glotal e o uvular.


AAA... eee... só comentar... quando eu li o "abordaremo-las", fiquei muito "WOW... isso tá muito estranho". Aí que eu me lembrei que o artigo da wikipedia sobre colocação pronominal dizia que ambos os futuros do indicativo [i.e., futuro do presente e do pretérito] não permitiam ênclise [o que não significa que tu não possa usá-la].


Vítor De Araújo, 2013-03-20 21:17:45 -0300 #

Valeu a correção. Eu altero o post quando o meu humor estiver melhor. Por enquanto vou alegar que foi influência do Don Quixote. :P


John Gamboa, 2014-11-29 16:56:49 -0200 #

O Vítor...

Queria saber: eu posso postar uma tradução em inglês desse teu texto no meu blog? Ou eu posso pelo menos fazer a tradução, te mandar, e tu posta por aqui (pra eu não me sentir roubando teu conteúdo xP). Ou algo do gênero...

A moral é que eu queria escrever sobre fonologia e eu não queria ter de escrever sobre o IPA tudo denovo (quando aqui já tá tudo mastigadinho) só pra poder escrever sobre regras de fonologia e tals =S Eu tava pensando que, se eu fosse traduzir, talvez fizesse um esforço pra adaptar o que foi dito para o inglês (porque quem lê em inglês provavelmente não fale pt). Enfim... sei lá... vou esperar responderes e aí vejo que tu acha =)

[Eu já to há eras querendo fazer uma postagem sobre fonologia e ultimamente tenho estado mais feliz quanto ao assunto: tenho percebido algumas influências da minha fonologia portuguesa sobre o meu falar em inglês, e também algumas influências da fonologia dos falantes de alemão no seu inglês... tava querendo escrever sobre <o>]


Vítor De Araújo, 2014-11-29 20:25:15 -0200 #

@John: "O conteúdo deste site, a menos que de outra forma especificado, pode ser utilizado livremente, com ou sem alterações, desde que seja mencionado o autor, preferivelmente com a URL do documento original." :P

Pode traduzir/adaptar e postar no teu blog, tranqüilo. :)


John Gamboa, 2014-11-30 11:21:13 -0200 #

AA... lol... não tinha visto o escrito (e teria perguntado mesmo o tendo visto, na real xP).

Ok entonces. Provavelmente eu faça uma tradução =)

Ando mais produtivo no meu blog ultimamente, já que tenho tido a qualidade de vida suficiente pra pelo menos (1) dormir bem e (2) tirar um dia do fim de semana pra administrivia pessoal (lavar roupa, comprar comida, escrever no blog, ter um banho de sol, tocar flauta, ler coisas que eu queira ler, ...). Não sei como vai ser quando o fim do semestre se aproximar, mas até agora tem sido bem ok (apesar de 7 + 1 cadeiras que eu to fazendo [resolvi pegar mais uma essa semana -- não existe matrícula: tu te matricula pra prova --; eu tenho a forte impressão de que as cadeiras aqui são mais fáceis que as da UFRGS até agora <o>]).

Enfim... tri \o/ Possivelmente no próximo fim de semana eu escreva a tradução e aí poste a outra postagem (que eu já escrevi, na real, mas falta traduzir pro inglês <o>) sobre uns "bugs" de fonologia que eu tenho quando falo em inglês.


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