Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Às vezes em Português, sometimes in English.

To tweet or not to tweet

2013-04-07 22:41 -0300. Tags: life, comp, web, privacy, em-portugues

Dracula: "I'm all screwed"

Richter: "I am the instrument of your doom"

Dracula: "Perhaps not... not yet"

Richter: "What!?!?!"

???: "Richter! You killed my father! Prepare to die!"

Richter: "ALUCARD!!!"

Alucard: "You can't know... you'll never know how it feels..."

* TUM *

Richter: "NOOOOOOOO!"

– Castlevania, Hélio's edition

Há pouco mais de um ano eu abandonei o Twitter (well, not quite; eu só parei de postar lá, na verdade) por conta de eles terem vendido o acesso à base de tweets para umas empresinhas de mineração de dados. Há pelo menos metade desse tempo eu venho remoendo essa decisão.

Assumptions

Na época eu usava o Twitter com "tweets protegidos", i.e., apenas as pessoas que eu autorizei que me seguissem podiam ver os meus tweets. Eu assumia assim que apenas uns poucos conhecidos veriam o que eu estava postando.

Não é bem assim que a coisa funciona. Embora tweets protegidos não sejam retweetáveis, nada impede alguém capaz de ler um tweet de copiá-lo e retweetá-lo na mão. Retweets são uma feature fundamental do Twitter; não faz muito sentido contar com que algo postado no Twitter não vá ser retweetado. Proteger os tweets não melhora muito a situação.

Abandonemos, pois, a noção de que existe "publicidade seletiva" no Twitter: assumamos que "o que você diz no Twitter pode ser visto no mundo inteiro instantaneamente" (palavras dos termos de serviço, as it happens). E por "o mundo inteiro", leia-se o mundo inteiro. Na época da matrícula da UFRGS nesse ano eu vi alguns retweets da @ufrgsnoticias que provavelmente não estavam nos planos dos indivíduos retweetados e que eu fiquei cogitando comigo mesmo se não poderiam causar algum problema para os mesmos. Essa "falta de privacidade" é, me parece, uma propriedade fundamental do serviço Twitter, não um erro da companhia Twitter que o fornece. Assim (me parece), não faz sentido condenar o Twitter por esse tipo particular de falta de privacidade, mas tão-somente aprová-la ou não (e utilizar ou não o serviço de acordo).

(Essa falta de privacidade na verdade é uma propriedade compartilhada com blogs e páginas pessoais. No Twitter isso é um pouco mais acentuado pela facilidade de retweetar posts alheios, mas não é fantasticamente diferente. Essa "publicidade fundamental" é diferente do vazamento de informações pessoais para terceiros que não é fundamental para o serviço e não é do interesse do usuário. Mais sobre isso adiante.)

Ok, tweets são públicos. "Tweet privado" é praticamente uma contradição em termos. Aceitemos esse fato e tomemos por princípio que o Twitter só serve para postar coisas que não nos importamos de compartilhar com o mundo (e.g., links para coisas interessantes, recomendações de filmes/livros, etc.). Entendido isto, podemos seguir usando o Twitter com a consciência limpa.

Heh, não

Faltam dois problemas a considerar. O primeiro é o uso que se faz dessa informação além da mera publicação mundial. Isso inclui a venda ao acesso da base de tweets para as empresinhas de data mining, que foi a causa original do meu desgosto pelo Twitter.

Na verdade, o Twitter sempre vendeu o acesso a tweets, mesmo antes desse incidente; a diferença é apenas que o Twitter costumava limitar o acesso aos tweets dos últimos trinta dias. (O fato de que eles já brincavam de vender tweets antes não torna o ato de vender o acesso à base inteira nem mais nem menos ético, mas vamos adiante.)

O segundo problema são as outras informações que caem nas mãos do Twitter além dos tweets, e que uso o Twitter faz delas. Vamos por partes.

A miserable little pile of non-secrets

Pois, o Twitter vende, e sempre vendeu, o acesso a (porções da) base de tweets. Esses tweets são públicos para início de conversa*. A diferença entre baixá-los você mesmo e comprar o acesso é que as APIs do Twitter impõem certos limites na busca de tweets (e.g., aparentemente existe um limite de 1500 tweets nos resultados de buscas por termos), e que provavelmente a base é oferecida em um formato mais conveniente de manipular. (* Tweets protegidos são outra história. Eles vivem em um limbo questionável: a política de privacidade jamais menciona "tweets protegidos", então pelo menos para mim não está claro se eles são considerados informação pública (e conseqüentemente comercializável), ou se estão inclusos entre os dados pessoais que o Twitter diz não vender (o que não impede que o Twitter seja comprado e com ele seus dados, but I digress).)

A possibilidade de data mining, assim, pode aumentar com o fato de que o acesso à base de tweets é comercializado, mas ela não deixa de existir sem essa comercialização. Na verdade, a Internet inteira é alvo de data mining. Google (a organização) e outros mecanismos de busca já podem facilmente explorar toda informação pública na Internet, independentemente do seu consentimento. A diferença de postar no Twitter é facilitar a vida do Twitter e parceiros, mas postar em qualquer outro local público da web (como o identi.ca, ou seu blog pessoal) tem o mesmo risco.

É uma propriedade da Internet que toda informação pública é (em geral) facilmente acessível. Uma conseqüência disso é que coisas que antes eram muito difíceis (e.g., catar todas as notícias sobre um certo tópico ou pessoa nos jornais dos últimos N anos) agora são viáveis, e, junto com todas as vantagens que isso proporciona, vêm certas conseqüências negativas para a privacidade das pessoas. A sociedade vai ter que dar um jeito de se adaptar a isso, mas não é um problema do qual se possa escapar trocando o serviço em que essas informações serão publicadas (assumindo que se pretenda publicar essas informações para quem quer que as queira ler).

Fica a questão de se é ok o Twitter ganhar dinheiros vendendo acesso aos meus posts sem me pagar nada. Essa questão é sugerida como um exercício para o leitor.

The actual secrets

O segundo problema são os outros dados além dos tweets. Esses dados podem ser divididos em duas classes: os dados "inevitáveis", i.e., aqueles que o Twitter necessariamente obtém a partir do uso do serviço; e os dados "evitáveis", i.e., aqueles que você pode evitar mandar com um pouco de cuidado.

Os dados inevitáveis incluem:

Os dados evitáveis incluem:

Fica a questão de se é "certo" usar um serviço que coleta dados que você acha que ele não deveria coletar só porque você consegue burlar a coleta. A resposta depende de quão idealista você está se sentindo hoje.

Outros comentários

Uma desvantagem de usar um serviço centralizado para publicação de informações (e.g., Twitter, Blogger, Wordpress, Facebook (ok, o Facebook tem inúmeros outros problemas, but I digress)) é que os "dados inevitáveis", tais como logs de acesso, ficam concentrados com uma única organização. Mesmo na arquitetura atual da Internet, em que acessar um serviço implica contar-lhe onde você está e possivelmente outros dados, a situação não é tão ruim se os dados estão espalhados entre vários servidores, o que dificulta sua exploração. (Seu provedor de acesso continua com um bocado de informação, entretanto.)

Por outro lado, uma rede social é mais útil quando um grande número de pessoas a usa; essa é uma vantagem de "todo o mundo" usar o Twitter, ao invés de cada um "roll their own" microblog. Porém, em teoria nada impede que cada um rolle seu own microblog e todos funcionem de maneira integrada, desde que eles usem um protocolo comum de comunicação.

µ.

Conclusão

A conclusão é que talvez eu volte a usar o Twitter no futuro próximo. Ou não.

Comentários / Comments (3)

Marcus Aurelius, 2013-04-07 23:43:09 -0300 #

"Rolle seu own" é ótimo, hahahahahaha

Valeu pela dica, acabei de desativar o "Tailor Twitter based on my recent website visits"

Esse negócio de widgets para compartilhar espalhados por toda a internet foi um dos motivos que me fez sair do Facebook recentemente. O Twitter me incomoda um pouco menos por dois motivos: (1) tenho poucos seguidores, e é um grupo homogêneo, quase todo mundo da informática ou esperanto; (2) não aconteceu nada bizarro até agora.

Já com o Facebook eram outros 500... (1) o número de amigos estava ficando meio grande, incluindo família, amigos, colegas, ex-colegas, chefes, desconhecidos, e pessoas com ideais completamente opostos (qualquer coisa que eu postasse ia ofender alguém, hahaha); (2) aconteceram no mínimo dois casos bizarros de aparecerem no meu perfil coisas que eu não "curti" (uma foi uma propaganda de cerveja e outra foi um vídeo em que eu só cliquei em Play, não em Curtir - por sorte era só um vídeo dos Cavaleiros do Zodíaco, hahaha, compartilhado provavelmente por alguém que também caiu no truque).


El Coyote Bombastico, 2013-04-08 00:53:20 -0300 #

Não volta a usar esse lixo. E esse Hélio deve ser muito otário. Dá joinha nele.
Facebook sempre! Amém!


Vítor De Araújo, 2013-04-09 00:42:42 -0300 #

@El Coyote Bombastico: Eu devia ter escrito "Brauner's edition". :P

@Marcus Aurelius: Facebook não só é um insulto em termos de privacidade, mas também seguidamente eu ouço gente reclamando de bugs no troço. O primeiro camarada que lançar um serviço igual ao Facebook mas sem os bugs vai ganhar um bocado de usuários... :P


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