Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Às vezes em Português, sometimes in English.

O que são capabilities e o que elas têm de tão mágico

2014-04-19 08:39 -0300. Tags: comp, prog, unix, security, em-portugues

Eu já falei de capabilities por aqui algumas vezes antes. Neste post tentarei explicar o que elas são e por que eu acho que elas são a panacéia universal (ok, não, mas por que eu acho que elas são um avanço em comparação com as permissões convencionais do Unix).

(Antes de mais nada, gostaria de ressaltar que as capabilities a que eu me refiro aqui não têm nada que ver com o que o Linux chama de capabilities, que são basicamente uma maneira de separar o tradicional balaio de poderes do root em unidades que podem ser atribuídas individualmente a processos (e.g., com isso é possível dar a um processo o poder de alterar o relógio do sistema sem conceder todos os outros poderes de root junto).)

Ok, que diabos são capabilities?

Uma capability é um objeto ou "token" que representa a habilidade de um processo de acessar um certo recurso, tal como um arquivo ou uma conexão de rede. Capabilities possuem três propriedades importantes:

Turns out que file descriptors no Unix possuem essas três propriedades. Ao abrir um arquivo no Unix, o processo recebe um número inteiro que é um índice na tabela de file descriptors do processo, que é acessível apenas pelo kernel. File descriptors abertos podem ser passados adiante para os filhos de um processo ou transferidos via sockets. Uma vez aberto o arquivo, as credenciais do processo são irrelevantes para o seu acesso: um processo pode, por exemplo, começar executando como root, abrir um recurso privilegiado (e.g., ouvir em uma porta menor que 1024), e depois trocar de credenciais para um usuário menos poderoso sem perder o acesso ao recurso privilegiado, pois a posse do file descriptor da conexão é suficiente para garantir-lhe acesso ao recurso. (Um file descriptor não é uma capability pura porque conserva outros dados além dos necessários ao acesso do recurso, tais como a posição do cursor no arquivo, o que dificulta seu uso compartilhado por outros processos depois de transmitido, mas em essência trata-se de uma capability.)

A mágica de um modelo de segurança baseado em capabilities, entretanto, é que todo acesso a recursos é feito por meio de capabilities, e um processo tem acesso apenas aos recursos representados pelas capabilities que lhe são entregues. No Unix, por outro lado, um processo recebe acesso implícito e mais ou menos inevitável a diversos recursos, tais como o filesystem e a habilidade de criar conexões de rede. É possível cercar o acesso a esses recursos, e.g., usando chroot para entregar um filesystem alternativo ao processo (mas não é possível não entregar filesystem nenhum ao processo) ou regras de firewall para bloquear o acesso do processo à rede (geralmente indiretamente, e.g., rodando o processo com outro usuário e bloqueando o usuário no iptables), mas há uma série de dificuldades e inconvenientes envolvidos:

A raiz do problema é que o modelo de segurança do Unix foi criado no contexto dos sistemas multi-usuário dos anos 1970, em que a preocupação primária era proteger os usuários uns dos outros e o sistema dos usuários. Hoje em dia as preocupações são outras: no caso de computadores pessoais, a maioria das máquinas roda com um único usuário, e queremos proteger o usuário de programas potencialmente mal-comportados (seja por conterem vulnerabilidades, seja por descuido do programador, seja porque o programa é intencionalmente malicioso) que o próprio usuário executa. No caso de servidores, queremos minimizar o potencial de desastre caso um serviço seja comprometido. Capabilities se encaixam melhor (acredito) com essas preocupações do que o modelo de segurança tradicional do Unix, pois permitem um controle maior de o que um processo é capaz de acessar. Ao invés de passarmos aos programas o acesso ao filesystem inteiro e os nomes de arquivos que queremos que o programa manipule, passamos capabilities aos arquivos de interesse, sem entregar o acesso a todo o resto do filesystem junto. Ao invés de chamar todos os programas com o poder de abrir conexões de rede, podemos passar esse poder apenas aos processos que realmente tenham que ter esse acesso.

E o browser?

A essas alturas você talvez esteja se perguntando: "Ok, meu filho, e como isso resolve o problema do browser? Eu não vou ter que entregar uma capability para acessar todos os meus arquivos para o caso de eu querer fazer upload de um deles? Hã? Hã?"

A solução é uma das coisas mais legais que se consegue fazer com capabilities. Lembre-se de que capabilities podem ser transmitidas entre processos. Isso significa que nós podemos ter um daemon (chamemo-lo fileopend) capaz de fornecer capabilities. Ao iniciarmos o browser, passamos a ele uma capability que é um canal de comunicação com o fileopend. Quando o usuário vai fazer upload de alguma coisa, ao invés de o browser abrir a janelinha de "Abrir arquivo", ele manda uma requisição de abertura de arquivo ao fileopend. O fileopend, então, mostra a janelinha de "Abrir arquivo" ao usuário. O usuário escolhe o arquivo, e então o fileopend o abre e envia a capability correspondente àquele arquivo específico para o browser. O browser, assim, só tem acesso a arquivos que o usuário tenha selecionado explicitamente na janela de "Abrir arquivo".

Genial, hã?

And we can do it right now!

Atualmente existe um projeto chamado Capsicum: practical capabilities for UNIX, que teve bastante progresso recentemente. Trata-se de uma implementação de capabilities no FreeBSD, que está sendo adaptada para o Linux. O projeto inclusive produziu uma versão do Chromium baseada em capabilities, usando uma idéia análoga à do fileopend (que eles chamam de "user angels") para abrir arquivos do usuário.

Mas teoricamente, seria possível implementar capabilities em user-space no Unix com uma pequena dose de faconice. No cenário mais simples, seria possível rodar cada processo com um usuário/grupo diferente (gerar um UID/GID para cada processo novo), em um chroot, com acesso à rede bloqueado no firewall, etc., apenas com um canal de comunicação com um daemon que intermediaria o acesso dos processos a todos os recursos, tais como arquivos, conexões de rede, etc. Esse daemon faria o papel do kernel em um sistema com suporte nativo a capabilities. O problema com essa abordagem é performance: todo acesso a recursos teria que passar pelo canal de comunicação entre os processos comuns e o daemon. Porém, uma vez que file descriptors podem ser transmitidos por sockets no Unix, seria possível usar o daemon apenas para criar e transmitir file descriptors (capabilities) para os processos. Uma vez de posse do file descriptor, o processo pode utilizar o recurso "nativamente". A perda de performance seria apenas na abertura de recursos, e talvez não fosse tão significativa. Anyway, graças ao Capsicum, estamos em vias de ter capabilities nativas no Linux (hopefully no kernel mainline) sem ter que apelar a gambiarras.

Unix is dead. Long live Unix.

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