Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Às vezes em Português, sometimes in English.

Línguas mudam

2012-07-23 19:17 -0300. Tags: lang, rant, em-portugues

Ontem ocorreu a festinha de aniversário da minha irmã, e conseqüentemente uma reunião familiar. Como em mais de 50% das reuniões desse ramo da família, em algum ponto surgiu uma discussão sobre como as pessoas falam errado hoje em dia. O português "correto", dependendo da fase da lua, inclui:

21 anos de convivência me levaram a crer que discutir é inútil, embora eu ainda me arrisque a fazer um remark ou outro no meio das discussões. Vocês falam latim, pessoas? Esse tal de português correto a que vocês se referem nada mais é do que latim com dez ou quinze séculos de erros acumulados, penso eu comigo mesmo. E esse tal de latim nada mais é do que proto-indo-europeu com dez ou quinze séculos de erros acumulados. Mas eu fico na minha.

Desde pequeno eu observo que os tipos de erros cometidos por cada ramo da família são diferentes. Por exemplo, do lado paterno o para mim fazer (ao invés do para eu fazer do português "standard") é bastante comum. Do lado materno, isso praticamente não ocorre, mas em compensação há uma tendência geral a usar os pronomes retos ao invés dos oblíquos (ele viu nós). O ponto digno de observação é que os erros de cada grupo de falantes são consistentes. E uma vez que línguas nada mais são do que pura convenção, erros consistentes não são exatamente erros.

Convenção aqui é a palavra-chave: uma frase está "correta" se ela segue as convenções estabelecidas entre os falantes. Diferentes situações implicam diferentes convenções, entretanto: as convenções utilizadas para textos formais escritos são diferentes das convenções usadas pela língua formal falada, que são diferentes das convenções usadas na linguagem informal. A língua não é uma unidade uniforme, mas sim é composta por diferentes variantes, ou registros, que são usados conforme a situação. Exigir a presença das marcas de plural na língua formal escrita é perfeitamente válido; exigir que as pessoas pronunciem todas as marcas de plural em conversas informais é ridículo. (No caso da língua escrita em particular, especialmente em textos formais, o conservadorismo lingüístico é útil para garantir que textos escritos hoje possam ser compreendidos daqui a cinqüenta ou cem anos.)

Mas mesmo as variantes formais da língua sofrem variações com o tempo. Ninguém mais usa o vós, por exemplo. O pretérito mais-que-perfeito (eu fizera) está em vias de cair do cavalo também, embora algumas pessoas ainda gostem de usá-lo em textos literários. Hoje em dia há uma contenda quanto ao uso de pronome oblíquo em começo de frase (me parece correto, ao invés de parece-me correto). O pronome oblíquo inicial soa errado aos ouvidos de Portugal, e os gramatiqueiros prescritivistas brasileiros tendem a declarar a construção como inválida. No Brasil, entretanto, o pronome oblíquo inicial é comum na língua falada, mesmo nas variantes formais, e há uma tendência geral a se usar próclise sempre (i.e., colocar o pronome oblíquo sempre antes do verbo), e aparentemente essa é uma tendência já de séculos [citation needed]. Tentar forçar a língua escrita a um padrão estranho a todos os falantes da dita língua (o português do Brasil) é um tanto quanto tosco. É que nem tentar forçar os falantes de português do Brasil a escreverem estou a fazer, ao invés de estou fazendo. (Nesse caso, o português do Brasil é mais conservador, na verdade.)

Conseqüentemente, podemos concluir que daqui a uns duzentos ou trezentos anos provavelmente alguns usos do plural terão caído em desuso. "Mas como vamos viver sem o plural?", ouvem-se os gritos de horror de alguns. Bom, tecnicamente nós já estamos vivendo sem algumas marcas de plural na língua falada há muito tempo, e ninguém sofreu danos deletérios. Além disso, historicamente temos diversas instâncias de perdas de features gramaticais. Já ouviu falar do acusativo? Assim como em português nós marcamos o plural com uma flexão especial dos substantivos, adjetivos e pronomes, em latim havia uma flexão especial que se usava para marcar que uma palavra era o objeto direto de um verbo. Assim, puella poetam videt significava "a menina vê o poeta", mas puellam poeta videt significava "o poeta vê a menina". O -m final que costumava marcar o acusativo (o objeto direto) com o tempo passou de um m perfeitamente audível a uma simples nasalisação da vogal que o precede (de maneira similar, os m finais em português normalmente não são pronunciados como um m "de verdade"), e com o tempo simplesmente se perdeu. Como resultado, marca de acusativo em substantivos e adjetivos em português simplesmente não existe (embora resista em alguns pronomes, e.g., eu vs. me). "Como vamos viver sem acusativo?", ouviam-se os gritos de horror da antigüidade. Exatamente assim, respondemos nós. A marca do objeto direto por flexão deu lugar à indicação pela ordem da frase (i.e., a menina vê o poetao poeta vê a menina). E tem funcionado muito bem nos últimos dez séculos. Da mesma forma, a flexão de plural está dando lugar ao plural marcado apenas nos artigos e verbos, e em substantivos e adjetivos em contextos limitados.

"Mas então as línguas estão perdendo itens gramaticais o tempo todo? Daqui a pouco não vai sobrar nada da gramática!", ouvem-se os gritos de horror. Bom, não é bem assim. Ao mesmo tempo em que as línguas perdem features gramaticais, elas também adquirem features novas com o tempo. Por exemplo, na transição do latim para o português, a língua adquiriu um futuro do subjuntivo (quando eu fizer), que não existia em latim e é relativamente raro entre as línguas do mundo. O português também ganhou um igualmente raro infinitivo conjugado (para nós fazermos), que compartilha das mesmas formas do futuro do subjuntivo nos verbos regulares. O futuro do presente original do latim foi perdido e substituído por uma forma composta usando o verbo haver (amar hei (= hei de amar)), e posteriormente a forma composta foi readquirida como um tempo verbal (amarei). (Aliás, é por isso que a mesóclise é possível em português: o pronome pode ser intercalado no verbo porque o verbo é originalmente composto por duas palavras separadas.) O futuro está em vias de se perder de novo (amareivou amar), por sinal. É assim que funciona a porcaria.

Uma coisa que me deixa admirado nessa história de variantes lingüísticas é que muitas pessoas simplesmente não têm consciência de que usam mais de uma variante da língua. Ontem, durante a discussão, um dos presentes declarou que falava o português "correto". Só que isso não é verdade quanto a praticamente qualquer falante, se "correto" refere-se ao padrão literário da língua prescrito pelos gramatiqueiros. Ainda que algumas pessoas mais cuidadosas evitem omitir os plurais, a omissão dos -r finais de conjugações verbais (com exceção de pôr, for) é praticamente universal na língua falada, quando não se está dando ênfase ao verbo. O mesmo vale para a substituição de pronomes oblíquos de terceira pessoa por pronomes retos (eu encontrei ele na rua, ao invés de eu o encontrei na rua). Alguns "erros" são tão comuns que raramente são notados, mesmo quando a pessoa está cuidando para encontrar erros. Orações subordinadas são uma fonte particularmente freqüente de desvios:

Pronomes também têm adquirido uns usos curiosos ultimamente. Uma construção que eu vejo ser usada com bastante freqüência na língua falada são coisas do tipo o Instituto de Informática, ele fica no Campus do Vale (com um ele a mais referindo-se ao sujeito que acabou de ser mencionado). Algumas pessoas usam os pronomes de terceira pessoa como pronomes resumptivos (o cara que eu falei com ele). Alguns desses usos me dão coceira no rim, já que por alguma razão eu mesmo não os uso*. É normal, entretanto, que inovações lingüísticas se espalhem gradualmente, e portanto não tenham aceitação absoluta de imediato. Pode também acontecer de elas simplesmente se espalharem entre alguns grupos e não entre outros, produzindo dialetos divergentes.

No más.

[* Eu costumo cometer uma atrocidade diferente e dizer o cara que eu conversei com, roubando uma feature do inglês. Não acho provável que essa construção venha a adquirir uso amplo em português, entretanto.]

Comentários / Comments (3)

Cayo, 2012-07-30 23:10:14 -0300 #

Muito massa. Tenho minhas dúvidas (de leigo) quanto a se o plural vai mesmo cair em desuso, justamente porque hoje nós temos os diferentes registros tão bem delineados. Parece improvável que comecem a *escrever* sem usar plurais. Acho mais plausível que se altere formalmente a fonética da língua.

O David Foster Wallace, um dos meus escritores favoritos, tem um ensaio ótimo sobre isso, chamado "Authority and American Usage". É um pouco pesado e bem longo, mas acho que tu vai gostar. Tem um estilo super característico do DFW, que eu adoro. Só não sei onde tu poderia encontrá-lo online...


Marcus Aurelius, 2012-08-16 17:09:19 -0300 #

Por outro lado, o que me dá coceira no rim é terminar frases com preposições. Tenho notado um monte de frases escritas pela internet terminando com "falar sobre", “discutir sobre”...

Sobre pôr e for, tem uma frasezinha usada para se referir a um certo professor que eu tive. A frase é “a cô do vetô”. Então nem o R do final OR está imune, mas depende do sotaque da pessoa.

Outro fato curioso: li uma vez um desses “tutoriais da internet” sobre pronúncia do português para anglófonos. Supercomplexas explicações sobre a pronúncia de "uma" e "alguma" (ũa e algũa), enquanto eu exclamava na frente do computador: “Tá maluco? É só um M normal, não tem nada de especial aí! Tá explicando tudo errado pros gringos!”.

Até que eu percebi que existem sotaques (do nordeste geralmente) que realmente usam ũa e algũa e eu nunca tinha me dado conta (soava meio diferente, mas nada de mais).


John Gamboa, 2012-10-14 11:56:21 -0300 #

HEUAHEUAH... Direto eu chego num grupo de pessoas e pergunto "O que que vocês tão conversando sobre". Meu professor de português chamava a regra [de que a preposição tem que ir pro início] de "preposição voadora". É legal porque ela também é a regra do alemão.

Aliás... sobre o acusativo... eu gosto de pensar que o português simplesmente resolveu colocar tudo (no caso, acusativo e dativo) dentro do mesmo saco e chamar de "caso oblíquo". Assim como a marcação de plural tem migrado pra somente o artigo, a marcação desses casos acabou migrando pra os pronomes.

Mas é tri legal: a gente até tem um resquício de dativo através do pronome "lhe" -- o qual, diga-se de passagem, tá pra cair também [ênclise? Quem é que usa isso?].


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