Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Sometimes in English.

Quenya

2013-03-26 21:11 -0300. Tags: lang, conlang, book, ramble, about

Nos últimos tempos eu andei não postando tanto quanto eu gostaria (o que evidentemente me torna um impostor). Isso se deve em parte porque eu queria escrever posts decentemente coesos e coerentes. Por um lado eu estava meio indeciso sobre se fazia sentido falar de certas coisas em um único post ou se deveria abordá-las separadamente, entre outras questões organizacionais. Por outro lado, eu não andava com nenhum ânimo de escrever posts coerentes.

Well, no more µµµ. Para os próximos posts, e sabe-se lá mais quantos, eu abnego qualquer pretensão a coerência. Para me sentir um pouco melhor (não que isso seja de qualquer benefício ao leitor), vou começar a taggear esse tipo de post (que não é nenhuma novidade por aqui, mas eu tento me iludir de que eles são menos comuns) com a tag ramble. Por sinal, dada a inconsistência no uso de tags nesse blog ao longo do tempo, tem uma dúzia de posts que eu vou ter que taggear retroativamente. But I digress.

Anyway.

Durante as férias, eu resolvi finalmente pegar o Senhor dos Anéis para ler. O motivo por trás disso era primariamente poder desprezar a obra do Tolkien com conhecimento de causa. You see, por motivos mui pessoais e largamente ilógicos eu me via obrigado a ter um mínimo de respeito pela obra literária do Tolkien enquanto não a lesse. Por outro lado, eu tinha cá com os meus botões que o Senhor dos Anéis não valia grande coisa; tanto quanto eu sabia da história, a parte não-maçante era a parte que tinha sido copiada da mitologia nórdica.

Anyway, eu peguei o troço para ler. O livro (e não me diga que são três livros; isso foi idéia da editora) começa com um prólogo explicando o background da história para quem não leu o Hobbit, do qual o LotR originalmente era continuação. O prólogo descreve mui detalhadamente a vida dos Hobbits, tão detalhadamente que eu resolvi dar um fast forward para o fim do capítulo, tão-somente para descobrir que aquele era apenas o primeiro capítulo do prólogo, o qual consiste de nada menos do que quatro capítulos (ou seções, como preferir; eles não são tão longos) numerados e um não-numerado. Diante desta chocante observação, eu larguei o livro de mão e fui ler o Don Quixote (coisa que há de levar um bocado de tempo ainda, já que estou lendo em espanhol, língua na qual eu não estou acostumado a ler naturalmente, e a isso se soma o detalhe de que o vocabulário usado é um tanto quanto arcaico, fora que eu não estou lendo com particular constância; but I digress).

Isso foi há um mês e um tanto. Ontem eu resolvi pegar o LotR de novo (por razões que serão esclarecidas até o fim do post), mas dessa vez eu tomei a sábia decisão de pular inteiramente o prólogo. Eu ia começar a ler a história propriamente dita, e se a coisa continuasse igualmente enfadonha, eu ia largar esse livro de mão de vez, e me contentar em zombar da obra literária do Tolkien sem conhecimento de causa mesmo. Caso contrário, eu seguiria lendo e poderia mui informadamente escrever um post aqui dizendo o quanto eu desgostei da história, e sumiria com esse peso da minha consciência.

Em um golpe fatal contra meu rico e respeitável plano, os dois capítulos que eu li até agora foram surpreendentemente agradáveis.

E é isso. Esse livro provavelmente é digno da fama que tem, e se no fim das contas a história for ruim, pelo menos haverei de conceder que o camarada Tolkien escreve muito bem. Dois capítulos é muito pouco para afirmar qualquer coisa, mas enfim. Em qualquer caso, ler esse livro vai servir para ler The Last Ringbearer depois, uma obra que me parece altamente respeitável.

Mas não é sobre nada disso que eu vim falar originalmente, como o título do post pode sugerir. O que eu vim falar é sobre a obra do Tolkien como conlanger, e esta sim eu sempre admirei. (Famosamente (ou nem tanto), uma vez o Tolkien disse que "The ‘stories’ were made rather to provide a world for the languages than the reverse".) Ontem eu caí por acaso nesta página (procurando por "no word for if" no Google (pois estava eu experimentando com a gramática da minha conlang antes de ir dormir, e estava eu meditando sobre como criar orações condicionais sem uma palavra para "se", e resolvi pesquisar no Google se havia alguma língua que fizesse as coisas mais ou menos como eu tinha em mente, e que outras possibilidades havia para se construir condicionais sem "se" (sim, eu tenho uma conlang, que esteve semi-abandonada pelos últimos cinco anos (but I digress)))), e me chamou a atenção como as frases em Quenya (lê-se "qüênia", não "kênia") soam "naturalmente bonitas". Esse não é meu primeiro contato com Quenya, mas até então, for most part, eu só tinha visto frases criadas pelo próprio Tolkien, em um contexto artístico, e aí é de se esperar que as frases tenham sido cuidadosamente construídas para soarem bem. Mas aí está uma dúzia de frases compostas por uma pessoa não necessariamente preocupada com a beleza poética da tradução de "estou dormindo, deixe sua mensagem ou ligue para XXX" em Quenya, e as frases soam surpreendentemente bem (pelo menos para mim). (Eu ia gravar um ogg com a pronúncia de algumas das frases, mas me parece que os leitores não hão de estar particularmente interessados em ouvir minha bela voz proferindo sentenças aleatórias, e ao invés disso deixo-vos com El Hombre Tolkien Himself recitando uma versão pré-LotR do poema Namárië.)

E foi depois de cair nessa página que eu resolvi tentar retomar a leitura do LotR, e assim, li os acima referidos dois capítulos antes de ir dormir, o que conclui esta mui coesa história contada in media res.

Comentários (7)

Esperanto Antauen, 2013-03-27 14:19:35 -0300 #

Esse país é muito pobre.


Marcus Aurelius, 2013-03-30 01:00:57 -0300 #

Não entendi o comentário acima...

Achei Quenya muito espanhólico sonoramente (acho que nunca tinha ouvido, mas esse ë no final me é familiar... acho que li em algum lugar que ele só existe para anglófonos não pensarem que a língua tem Es mudos no final, haha)


Vítor De Araújo, 2013-03-30 15:08:59 -0300 #

O comentário ante-acima é um trocadilho infame by Hélio. :P

Quanto ao 'ë', sim, é exatamente esse o propósito. Mas aí o Tolkien inventa que 'c' tem sempre som de [k], sacaneando anglófonos e não-anglófonos igualmente. :P


John Gamboa, 2013-04-21 19:08:11 -0300 #

Bááá... daria pra construir condicionais de vários formas sem usar "se" explicitamente:

(usemos a frase "se ela comer meu bolo, mato-a" pra comparar)

1 - podes usar cheat e dizer que "caso" não é um "se" disfarçado e aí sair falando "caso + subjuntivo" (no inglês, o equivalente talvez fosse usar o "should"):

"Caso ela coma meu bolo, mato-a"

2 - podes usar o gerúndio do verbo (normalmente o sentido fica sutilmente alterado, mas funciona):

"Comendo ela meu bolo, mato-a"

3 - dá pra usar uma coordenação aditiva (acho que funciona sempre):

"Ela come meu bolo, e eu a mato"

4 - (a que me parece mais bonita -- mas parece cheat, também) dá pra inventar uma partícula random dentro do verbo que indique o "se":

"Ela come'se meu bolo, mato-a" [ou algo do gênero]

Não consigo pensar em mais nada.

--
Aliás... em alemão, tem dois "se"s (talvez tu goste de saber):

(1) O primeiro é pra frases como

"Se ela comer meu bolo, mato-a"
(_Wenn_ sie meinen Kuchen isst, bringe ich sie um)

, em que o objetivo é "condicionalizar" a frase inteira... e é independente do verbo.

(2) O segundo parece que depende do verbo: alguns verbos requerem frases com "se", como saber, esquecer, lembrar, etc...

"Eu não sei se ela queria chá ou café"
(Ich weiß nicht, _ob_ sie Kaffee oder Tee mochte/wollte)


Vítor De Araújo, 2013-04-21 21:33:54 -0300 #

Parace que o senhor encontrou um bug no blog system novo (ele não está colocando o http:// antes das URLs); achei que eu já tinha ajeitado isso...

Interessante os dois 'se's. Em inglês dá pra usar 'whether' no lugar de 'if' no segundo caso. Em esperanto se usa 'se' no primeiro caso e 'ĉu' (a partícula que forma perguntas sim/não) no segundo. Japonês faz uma coisa tipo a tua possibilidade 4 (mas tem duas formas condicionais, e eu não sei quando usa cada uma :P).

O que eu estava fazendo na minha língua era usar um "gerúndio-but-not-quite" da vida na condição, e uma palavra explícita para o "then" na conseqüência. Algo do tipo:

Se lǽda·ne·mme·wo gālte·wese·de, an me se·mo mērke·wes.
[he/she cake·the·my·ACC eat·FUT·ADV, then I he/she·ACC kill·FUT]

(Os '·' são meramente ilustrativos e algumas simplificações foram feitas, mas a idéia é essa. :P)


Vítor De Araújo, 2013-04-21 22:39:44 -0300 #

(Caso alguém tenha curiosidade de ouvir como se pronuncia isso:

http://inf.ufrgs.br/~vbuaraujo/blog/misc/merkewes.ogg )


John Gamboa, 2013-05-23 18:41:44 -0300 #

NUSSA... tinha esquecido de vir aqui ver a resposta. Que medo dessa tua língua aí... é bem mais complexa que eu esperava. Me pergunto donde tiras as palavras e como as guardas pra poder lembrar o que já tinha significado antes e o que não tinha ainda.


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