Elmord's Magic Valley

Software, lingüística e rock'n'roll. Às vezes em Português, sometimes in English.

Earth Language

2012-08-18 20:45 -0300. Tags: lang, conlang, em-portugues

Uma IAL que eu nunca vejo mencionarem em discussões sobre IALs é a Earth Language. De fato, não sei como eu cheguei a conhecer essa coisa. Earth Language (EL) é um projeto peculiar no mundo das IALs: a língua é baseada primariamente em ideogramas visuais, ao invés de palavras vocais. A inspiração da autora vem dos ideogramas chineses, que são compreensíveis por falantes de diversas línguas, tais como mandarim, cantonês, wu e demais línguas chinesas, bem como falantes de japonês e, historicamente, coreano e vietnamita, além de serem mais estáveis ao longo dos séculos do que palavras vocais. Os ideogramas da EL, porém, são mais sistematizados: o sistema consiste de 91 símbolos base, que podem ser compostos por sobreposição.

O seguinte GIFzinho animado (roubado do site da língua) dá uma idéia do funcionamento do sistema:

[Animação demonstrando a composição de caracteres em Earth Language]
Por Tutatis, pare esse maldito GIF

Como se pode ver pelo exemplo acima, em alguns casos (e.g., sol = círculo + aberto) uma combinação de símbolos é usada mais por sua imagem gráfica do que pela composição dos significados. Não há limite quanto ao número de símbolos que podem ser sobrepostos, mas para manter a legibilidade, também é possível unir símbolos (ou grupos de símbolos sobrepostos) por um hífen, ao invés de sobrepô-los.

Para formar frases completas, alguns símbolos gramaticais são usados. Por exemplo, há um símbolo que indica que o próximo ideograma é um verbo transitivo. Esse símbolo pode ser composto com o símbolo de "esquerda/antes", por exemplo, para indicar o tempo passado, e de maneira análoga para outros tempos e modos verbais. Há outros símbolos que indicam sujeito, objeto e outras relações gramáticais, de modo a permitir uma ordem livre dos elementos da frase. A idéia é que o "falante" possa escrever a frase na ordem em que escreveria em sua língua nativa, ou da maneira que lhe for mais natural. (Por outro lado, a língua impõe uma ordem modificador-precede-modificado, de modo que adjetivos vêm sempre antes de substantivos. De fato, até orações subordinadas (e.g., o homem que eu vi) devem vir antes do substantivo que modificam.)

Além da forma escrita, a língua oferece outros métodos de utilização. Um dos métodos bastante enfatizados no site da língua é uma linguagem de sinais, com gestos baseados nas formas de cada um dos 91 símbolos. Os gestos podem ser feitos tanto através da forma da mão quanto através de movimentos no ar desenhando o símbolo. Assim, com duas mãos é possível representar até quatro símbolos ao mesmo tempo (duas formas e dois movimentos), permitindo gesticular caracteres compostos, para valores adequados de coordenação motora.

Também há uma forma vocal, mas essa é considerada uma forma secundária de comunicação pela autora. Ao invés disso, ela propõe que cada pessoa fale em sua própria língua nativa, e utilize-se dos gestos para transmitir o significado para o ouvinte que não compreende a língua. Um dos argumentos para tal é evitar a substituição das línguas locais pela língua mundial. A cada símbolo é atribuído um som silábico; caracteres compostos são pronunciados utilizando uma sílaba [nə] para ligar cada componente. A ordem dos componentes não importa, já que as sílabas representam o caractere composto por sobreposição, no qual não há ordem para os símbolos.

O site da língua é totalmente caótico um tanto quanto desorganizado, e ainda mantém a cara de página feita em 1996, embora ainda seja mantido. Os textos também contêm uma dose de falta de noção, incorporando uma versão extrema da hipótese de Sapir-Whorf, com afirmações mal-fundamentadas sobre a estrutura das línguas em questão (negrito e sublinhado no original):

In the areas where people had lived in the same simple way for thousands years until recently,
their languages must be simple too. [Defina simples, camarada. Inuktitut é simples? Ubykh?]
The system of Japanese language raised by long-term inhabitants in the small islands
far from other places with four seasons have been raised for calling sympathy and harmony
more than working for logical insistences. [O que não impediu os japoneses de dominarem boa parte da Ásia no começo do século 20.]

The people with English had repeatedly been colonists in their history;
also have often been pioneers in science and technology.
Why could this be possible?
The main reason is that the thinking ways of the English language have supported them:
English has loosely accepted foreign words into it,
taking priority for efficiency to win/enjoy immediate things;
also the grammar is for insisting one line logic [huh?],
usually making clear the subject and its object in a sentence.
Some fundamental English words also have changed/widened the definition [como basicamente qualquer língua humana]
showing the competitive thought and efficiency.
[Também é a língua com a qual surgiu o movimento hippie.]

E mais adiante:

Don’t you feel scared that the entire world will be molded in the English way?
Don’t you want coexistence of lively cultural blossoms,
as nature makes various flowers, circulating diverse lives in each land?

What do you think about stopping/shortening arms races that use a lot of natural resources,
destroying environment and inflaming fears and fights?
Instead, how about having the new container of global thoughts for advancing cooperation,
coexistence and harmony
, without destroying nature; also for lightening up the future with hope,
helping individual creations and environmental protection?

I named Earth Language (EL) for this container: a new communication tool for the global world.
[...]
EL is going to make the world peaceful and round rather earlier than just exclaiming
opposition to war/nuclear power/environmental pollutions,
because it leads the users to think along continuous nature.

Sandices à parte, o projeto é interessante, e a língua parece bastante completa (embora o dicionário não seja de navegação muito agradável).

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